Chega ao Fim a Missão de João Paulo II
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Autor: Destaque In
Mensagens de pesar de governos, missas, celebrações fúnebres, manifestações silenciosas e sentidas de milhões de fiéis e admiradores se multiplicaram em todos os cantos do mundo.
O primeiro não-italiano em cinco séculos a subir àquele que os católicos consideram o trono de Pedro deixa uma lembrança indelével no coração de muitos dos seus contemporâneos, e com a morte, consolida uma obra de tais proporções que só a história será capaz de avaliar. Foram quase 27 anos à frente da igreja católica, no exercício de um governo cuja influência, pouco a pouco, estendeu-se muito além das fronteiras demarcadas pela adesão à mesma fé. O alcance mundial da liderança de João Paulo II, não limitado ao universo ou aos temas religiosos, é reconhecido até mesmo por aqueles que se opuseram mais fortemente às suas opiniões e à sua atuação. Com evidente coragem e coerência, o Papa esteve no centro de polêmicas de ordem mundial, como o caso recente da clonagem e da pesquisa com células-tronco embrionárias.
Desde 1978, ano em que Karol Wojtyla se tornou João Paulo II, o Papa que cruzou o novo milênio percorreu aproximadamente 1.200.000 quilômetros, visitando 133 países. Na Praça de São Pedro, recebeu e abençoou mais de 17 milhões de peregrinos de todo o mundo, quebrando quase todos os recordes da história dos papas.
Nesta edição, além do relato da despedida final, a Destaque In oferece um resumo da vida e obra de Karal Wojtyla, o Papa peregrino.
Em 1980 o Brasil Recebeu seu João de Deus
No dia 30 de junho de 1980, João Paulo II iniciava no Brasil a sua mais longa peregrinação desde o início de seu pontificado, que tinha então menos de dois anos. Seria a primeira de três viagens ao país que recebeu seu João de Deus com fervor e entusiasmo. Por onde o Papa peregrino passava, aulas eram suspensas e dias de trabalho eram interrompidos para que os católicos crianças, jovens ou adultos pudessem acompanhar sua mensagem. O Papa vinha com o propósito de “adorar o santíssimo Sacramento, ministério da fé e pão da vida”, conforme palavras ditas antes da partida, no Vaticano.
Recebido em Brasília pelo então presidente João Batista Figueiredo e por todos os ministros, ele celebrou missa em frente ao Congresso Nacional.
Referindo-se à abertura política que poria fim à ditadura instaurada em 1964, o pontífice manifestou a esperança de que o Brasil conseguisse superar suas dificuldades “sem choques, nem rupturas”.
Numa referência menos direta ao momento histórico, o valor da liberdade humana foi exaltado em Belo Horizonte (MG), onde o Papa permaneceu por apenas cinco horas, tempo suficiente para reunir um milhão de fiéis em uma missa campal na Praça Israel Pinheiro.
“ Só o amor constrói, só o amor aproxima, só o amor faz a união dos homens na diversidade. Pois não se constrói uma sociedade que mereça o título de humana, desrespeitando e, pior ainda, destruindo liberdade humana, negando aos indivíduos as suas liberdades fundamentais”, disse.
Mostrando seu entusiasmo pelos jovens, dirigiu-se a eles pedindo que não se deixassem seduzir por doutrinas ou ideologias que pregassem o ódio ou a violência. Ele também advertiu a juventude para o que chamou de “exarcebação do sexo, que destrói a autenticidade do amor humano e conduz à dissolução da família”.
Ainda nesta primeira visita ao Brasil, João Paulo II deixou claro, na passagem pelo Rio de Janeiro, que era contra o envolvimento do clero na política partidária. Depois de visitar a favela do Vidigal e o Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), afirmou que a “militância e liderança de partidos políticos ou o exercício de cargos públicos é missão dos seculares, não dos membros da Igreja”.
Do Rio a peregrinação da primeira visita de João Paulo II ao Brasil continuou até Porto Alegre (RS) com passagens por São Paulo (SP) e por Curitiba (PR). Com a energia de quem havia dedicado a juventude aos esportes, o Papa foi também ao Nordeste, começando a visita por Salvador (BA) e seguindo para Recife (PE).
Diante da pobreza vista na região, o Papa fez apelos para que juntos, povo e governo, lutassem pela melhoria das condições de vida da região.
No Estádio Governador Plácido Castelo, em Fortaleza (CE), abriu o 10º Congresso Eucarístico Nacional. O tema do encontro, “uma sociedade sem injustiça”, permitiu novas reflexões sobre a solidariedade e a justiça, consideradas pelo Papa a arma mais poderosa contra a concentração de riquezas. Ele pediu o empenho dos católicos no combate à pobreza, à miséria e às diferenças sociais. Com os bispos, falou sobre a missão da Igreja na sociedade. Mais uma vez, aproveitou para pedir aos religiosos mais ação espiritual que política.
Em Teresina (PI), João Paulo II falou sobre a triste situação dos flagelados e defendeu o direito dos homens à terra. Em Belém (PA), teve um momento de grande emoção quando se encontrou com doentes.
Doze dias depois, em 11 de julho, em Manaus (AM), João Paulo II encerrou sua visita ao Brasil depois de um encontro com os índios, que pediram o apoio do Vaticano para sua causa a luta contra a contínua redução da área de suas reservas. Sob um calor de 45º C, ele rezou uma missa campal para 400 mil pessoas. Na homilia, homenageou as missões e os missionários. Na despedida, o sinal de que ele gostara do que viu: “Eu disse que era um homem de dizer adeus, mas digo apenas até breve”.
