Educação e Chocolate
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Autor: Destaque In
Inez Lemos
A grande tarefa do neoliberalismo foi transferir a educação da esfera da política para a esfera do mercado, deslocando seu caráter de direito e reduzindo-se à condição de mercadoria. A crise na educação passa por uma reconceitualização da noção de cidadania, que surge centrada numa revalorização do indivíduo como proprietário. O modelo de educação atual é composto de escolas privatizadas, dinâmicas e consumidoras. A idéia de educação que pretendemos recuperar é de uma educação gestada com a concepção de democracia, quando os critérios de igualdade e de direitos sociais sejam contemplados. Do desafio faz parte construirmos barreiras ao discurso do capitalista, como às tendências do mercado e outros discursos que atuam com efeito de verdade. Devemos trabalhar na linha da desconstrução. Desconstruir o discurso da demanda e construir o do desejo. A luta por um outro mundo requer práticas discursivas. Se existe o discurso do capital, do supérfluo, do fetiche, pode existir o discurso dos consistentes, dos letrados e eruditos. Dos interesses no elogio do belo e do bom. O renascimento de uma outra ética e estética exige desobediências aos “mercadores do chocolate”. O movimento deve incluir a moral dos homens e não a do mercado. O mercado quer interferir nas fantasias e na moral dos homens.
Amoral é sustentar a demanda do outro capitalista, em detrimento da qualidade de vida de nossos filhos. É vender a alma ao Deus pós-moderno, midiático, em sua ferocidade acumulativa.
A luta contra o corporativismo globalizado e pós-industrial deve ser constante. Contrapor suas mazelas e perversões exige convicção e práticas da cultura da transformação.
É ainda possível encantar a criança com a beleza do mundo espontâneo? Existe uma beleza ingênua que definha e, com ela, a esperança de salvar o homem das banalidades da vida atual. A concepção de beleza e felicidade que interessa, é a do eu em si, e não do eu fora de si. No mundo equivocado, a psicanálise pode ser uma saída, na medida em que possibilita a conquista de um futuro mais afinado com a verdade do sujeito e sua essência. Ela procura ajustar o sujeito em seu desejo, pois muitas vezes existe uma distância entre aquilo que ele pensa que deseja, e o que ele realmente deseja, porém cochila nos subterrâneos de seu inconsciente. A psicanálise potencializa o sujeito na luta pela sua verdade, como ao encontro de seus significantes. É próprio do ser humano querer desvendar seus enigmas.
Quais os significantes que me nomeiam? Com quais eu me filio? Quais os valores que melhor me representam? Tudo isso faz parte de nossa arqueologia. Cabe a nós desvendar os mitos que nos governam.
Na trajetória da formação das subjetividades do filho, os pais não podem negligenciar. Tampouco delegarem a responsabilidade televisiva. Esse é um trabalho interno, árduo, profícuo e longo. Freud já havia nos alertado: “Não existe uma chave de ouro para todos, cada qual deve encontrar, à sua maneira, uma forma de ser salvo”. A utopia é justamente aquilo que ainda não foi tentado. A salvação está dentro de cada um de nós.
Ela é parte de nossa interioridade. O outro pode tanto ser salvação como terror.
É essa dupla vertente da vida que coloca o sujeito num torvelinho de angustia e incerteza. A vida não é completa. É imperfeita, contraditória. E é a partir das falhas e faltas inerentes ao mundo dos homens que o sujeito tem que se haver. Não existe um pai ou professor que responde a tudo. A tragédia humana é deparar com o desamparo. Educar é apontar para os limites da vida humana. Sem isso, os jovens vão tentar tamponar a falta nos objetos/ drogas: álcool, cigarro, fluoxetina. Eles atuam como delírio, ilusão, fetiche. Ser pai não é responder a tudo, mas cumprir com a função da presença, mesmo na ausência. É aquele que aponta caminhos e alerta para os descaminhos. Hoje o descaminho está por toda parte, inclusive nas escolas.
Educação e espetáculo. Na tirania pelo mais-vender, pouca coisa escapa. Vender educação é diferente de vender chocolate. A educação não pode ficar refém dos empresários. Os embrutecidos pela ideologia do dinheiro não devem meter-se na educação das crianças. Aos pais cabe fiscalizar, participando e contestando, quando necessário. Não faz parte do princípio educativo transformar as escolas em verdadeiros supermercados. Permitir que empresas entrem numa escola infantil, e num simulacro teatral, divulgam seus produtos, é amoral. De Nestlé a Elma Chips, o espaço escolar transformou-se num palco de guloseimas. Não é função da escola estimular o consumo. Pelo contrário. Cabe à escola oferecer outros sentidos e sentimentos a seus alunos.
Inseri-los na beleza ingênua, quando a natureza confirma seus direitos sobre o mundo artificial e fingido. Fantasiar é diferente de fingir. E uma boa forma de se proteger da loucura. Educar não é logística. A guerra do marketing, num furor irracional, rompe qualquer barreira em sua meta por rentabilidade. A escola, ao compenetrar-se do seu papel de formadora de cidadãos éticos e compromissados com o bem comum, acaba por desestimular vícios consumistas. Hoje as escolas funcionam mais como um espaço de competição quando alunos exibem seus gadgets.
O carro do pai, a mochila mais cara. A maratona exibicionista, ao expor os bens dos privilegiados economicamente, coloca entre seus filhos, os de menor poder aquisitivo em situações humilhantes, uma vez que os ricos se comportam como poderosos e melhores.
A escola é o espaço em que a equidade e a sociabilidade entre os pares devem ser estimuladas. Ao permitir que alunos entrem com presentes ao professor, os objetos que destoam do ambiente escolar, ela reforça o modelo de excludente de ensino. E pouco humanista. Melhor seria se a escola, com os pais iniciasse um movimento por práticas menos mercadológicas, barrando o entusiasmo pelo consumo. Criança precisa ser entusiasmada, sim, mas para a curiosidade diante dos mistérios da vida. Vida é o sonho, é transgressão, é paixão. Boa é a educação que parte do conhecimento para o desconhecimento e questiona as verdades a partir da cabeça e do coração dos alunos.
O ideal de mercado que circula na mídia impõe a lógica que interessa ao capital. Nada mais anti-socrático que a ratio moderna. Esse ideal de vida está associado à razão cínica dos empresários e dos gestores de educação. Na luta por uma maior qualidade no ensino, é imprescindível que os pais regulem o uso dos meios de comunicação de massas entre seus filhos, como passem a intervir no processo educativo deles, debatendo nas escolas questões relativas à vida e o socius. Como também inicie uma maior participação nos movimentos que visem pressionar as emissoras de televisão por programas de maior qualidade, como faz a ONG Tver. Muitas são as mazelas que espreitam as crianças de hoje. O mal é a promessa não cumprida. E educação é promessa de todo pai e de todo governo. É hora de tornar deles o que um dia foi nosso. Como educação, cultura e violão.
Sem saber português ninguém vira músico. Sem história, ninguém descobre mundos. Na brevidade da vida sem arte, o jovem resumido e fragilizado se esvai.
O objeto de desejo é o objeto é o objeto que um dia se perdeu, mas que move o sujeito numa eterna busca. O importante não é o encontro, mas o ato da busca.
Como elevar a vida à dignidade de coisa, do objeto perdido, aquele que nos marcou para o resto de nossas vidas? Lancan chamou de “objeto a” esse objeto que falta, que está perdido. Para Lancan, o objeto é o cavo, o vazio, a hiância. O objeto a ocupa o lugar do agalma, aquilo que Alcibíades desejava em Sócrates. No Banquete de Platão, somos surpreendidos com o agalma, termo grego que significa tesouro, objeto de oferenda aos deuses, valor. O agalma representa o enigmático entre nós, o objeto de desejo, aquilo que sempre vai nos faltar, mas que nos move e nos faz vivos e desejantes.
A coisa que escapa do mundo simbólico, que não conseguimos nomear, e que nos faz falta. É com essa falta que o homem deve aprender a conviver. Esse objeto irremediavelmente perdido e que jamais será reencontrado, o objeto da satisfação primeira e que nos marcou pra sempre. Longe de pensar que ele será encontrado de forma espetacular (no outro), naquilo que nos é espelho, devemos criar o nosso espetáculo, a nossa imagem. Lá, onde o “objeto a” falta, nós devemos advir, com nossa singularidade. Essa falta ôntica, essa perda originária, é constitutiva do sujeito. A satisfação absoluta está fadada à insatisfação. Como levar os jovens e adolescentes a reconhecerem e a lidar melhor com essa falta que nos perturbam, com esse oco incendiário? Com certeza não será empanturrando-os de chocolates. Algo de maior em suas vidas deverá acontecer. Portanto, resta aos pais e educadores se implicarem na formação das crianças, encetando-as na curiosidade pela vida. Naquilo que a vida tem de belo, que é o amor e a sabedoria. Ser é bem mais interessante que ter. O homem é aquilo que viveu e apreendeu com a alma. Sua vida é sua memória e sua história. Ao repetir Guimarães Rosa: (O que lembro, tenho), afirmamos que o que se aprende com o coração não se esquece.
*Inez Lemos é Psicanalista
