Impressões da Primeira Literatura Italiana




Dante Alighieri
O contacto com uma grande literatura é sempre marcante; jamais podemos esquecer a linha de crescimento que vai desde os primeiros, ainda tímidos esboços, até as obras-primas que assinalam o ponto mais alto daquele crescimento; as explicações sobre o fenômeno são, entretanto, menos interessantes que o fenômeno em si, acompanhado passo a passo nas obras que o testemunham.
    
Por isso terminamos há pouco, com emoção, a leitura de uma “Historia de la Literatura Italiana”, pelo erudito alemão Karl Vossler. Trata-se, aliás, de um volume simpático, despretensioso, como todos os que formam a antiga Coleção Labor, editada em Barcelona na década de 1920, e destinada a transmitir de forma simples e acessível conhecimentos fundamentais sobre os mais diversos assuntos. Lá podemos encontrar títulos como “Los Pintores Impressionistas”, “Los Grandes Pensadores”, “El Renacimiento” e outros que fazem ainda hoje a delícia dos bibliófilos; são todos volumes de poucas páginas, “obritas”, como se diz em espanhol, que atingem com perfeição o objetivo proposto.
    
O livro de Vossler tem início com observações sobre a história e o caráter da língua italiana, sua filiação ao latim, sua sonoridade e sensualidade, a musicalidade das palavras e o poder de atração exercido por elas mesmo sobre os estrangeiros, e um traço particularmente curioso: a língua já estava “pronta” no final da Idade Média, de tal modo que o conhecimento dos grandes escritores desse período exige menos esforço da parte do leitor moderno do que em outras línguas. Ao contrário, a leitura de autores arcaicos, franceses, ingleses ou alemães, implica numa profunda e dificílima iniciação filológica que perturba e desanima a muitos.
    
A prosa e a poesia italiana começam com o “volgare”, aquela língua popular, sob influência dos derradeiros cronistas latinos e dos trovadores medievais; assuntos do cotidiano e as cantigas que celebram o amor e a amizade, a sátira e a crítica social aos costumes da nobreza e do clero, o fantástico e o mitológico vistos sobre um prisma ainda medieval são os assuntos abordados no “volgare”. Os autores da época são, muitas vezes, anônimos, pouco preocupados com a glória póstuma, e voltados para a realização de seu trabalho literário; assim, por exemplo, jamais foi possível descobrir quem escreveu as “Cento Novelle Antiche”, uma interessante coleção de crônicas e contos que apareceu em Florença na primeira metade do século XIV.
Petrarca    
Os primeiros três grandes autores da literatura italiana, que lhe assinalaram as formas principais e a direção geral do seu pensamento durante séculos, são Dante, Petrarca e Bocaccio. O primeiro reuniu de maneira mais elevada, dir-se-ia mesmo sublime, tudo o que seus predecessores, os poetas trovadores, tinham cultivado, dando origem ou aperfeiçoando um estilo diferente, mais intimista, cheio de lirismo, o chamado “dolce stil nuovo” onde aparece a figura de mulher idealizada, no caso a célebre Beatriz. Sua “Comédia”, que na verdade é um drama e recebeu bem mais tarde o epíteto de “Divina”, tem como tema o destino das almas após a morte. Trata-se de um livro originalíssimo, em torno do qual, aliás, muitos talentos críticos de primeira categoria se esgotaram e muitos imitadores sem talento fracassaram; em sua riqueza e variedade, a trama de Dante nos mostra ora as culminâncias da teologia e da filosofia, ora as efusões magoadas e quase comuns de um homem de gênio que coloca nos umbrais do inferno todos os seus inimigos pessoais e políticos.
    
Petrarca era um poeta de formação francesa, considerado o inventor do soneto e o descobridor da poesia da paisagem, que tanta influência exerceria, mais tarde, na pintura italiana. Ficou famosa sua escalada do Mont Ventoux, no sul da França, quando ele declarou tê-la feito sem qualquer objetivo prático, porém, simplesmente, pelo prazer da escalada; isso era inédito e quase absurdo para o pragmatismo da época, assim como pareceu estranha a preocupação sistemática de Petrarca com ruínas e obras de arte antigas, o que não era senão o efeito do maravilhoso amadurecer do espírito na direção da Arqueologia e da História da Arte.
    
O maior título de glória de Petrarca, entretanto, é seu grande amor pela literatura antiga, greco-romana, por ele estudada e cultivada com grande carinho e atenção. Ele retomou formas daquela literatura, como a biografia e a historiografia, dando-lhes novos, vigorosos, “modernos” rumos; ele fez da composição de suas cartas, as famosas epístolas, um meio de registrar a riqueza incomensurável da vida cotidiana na Itália de seu tempo, abordando sentimentos, expondo intrigas sociais e políticas, usando e estudando novas formas de expressão. Embora tenha escrito a maior parte de suas obras em latim, Petrarca foi o primeiro italiano a estudar as obras gregas e providenciar uma tradução de Homero; ele também levou aos extremos da perfeição formas literárias em “volgare”, como a canção e o soneto, a canção de amor inspirada pelo amor platônico de sua Laura; e foi num lance pitoresco, quase teatral, que o poeta terminou sua vida: encontraram-no recém morto, debruçado sobre um manuscrito antigo.  
Dante Alighieri    
 Bocaccio era um “bon vivant”, fazendo lembrar outros poetas do mesmo gênero, como Guittone d'Arezzo e sobretudo Cecco Angiolieri, cuja Becchina é bastante diferente de Laura e Beatriz, uma amante bem carnal, viva, de faces rosadas, intrigante, fiel companheira de festejos boêmios regados pelo doce vinho da Toscana. Bocaccio teve sincero amor pelo belo sexo, notando-lhe a elegância e o requinte, e colocando em destaque a sua participação decisiva nas atividades culturais; esse amor resulta num livro em latim cujo título é bastante expressivo: “De Claris Mulieribus”, ou seja, “Sobre as Mulheres Ilustres”.
    
Este autor escreveu o “Decameron”, em italiano, uma coletânea de “novelas” ou pequenas histórias escritas a partir de curioso argumento: durante a terrível epidemia de peste bubônica que devastou a Itália em 1348, um grupo da alta sociedade florentina buscou refúgio no campo e aproveitou o lazer forçado para contar casos que tinha ouvido ou vivido, picantes, impregnados de erotismo e tiradas espirituosas. Aí se aprende que o prazer refinado, a gastronomia, a malícia e a “música dos sentidos” podem conviver em perfeita harmonia com a mais alta literatura.
Boccacio    
Como bom humanista, ou seja, um homem que encontra especial prazer no estudo das letras antigas e no cultivo das suas formas mais belas, Bocaccio escreveu uma obra de justa fama, levando-se em consideração sua profundidade poética e o imenso prazer estético proporcionado por seu conteúdo: “A Genealogia dos Deuses”, escrita num latim ciceroniano, de linhas firmes e dotado de intenso colorido; nessa obra, como num poço de águas abundantes, vieram beber muitos escritores, poetas, músicos e pintores encantados ao deparar, em plena modernidade, com o mundo loução da mais bela mitologia.