Imprensa e Responsabilidade
| |
Autor: Carlos Alberto Cerchi
O período gasto para a Terra dar uma volta completa em torno do Sol, alternando dias e noites, é também o tempo utilizado para o calendário da humanidade que corresponde a um ano. Os primeiros dias de janeiro são utilizados pelos meios de comunicação para fazer uma retrospectiva do ano findo. Previsões direcionadas insultam a inteligência dos cidadãos interessados na informação a que tem direito.
O balanço do ano passado, muitas vezes, é feito sob a ótica do interesse individual ou de grupos existentes na imprensa, com forte influência na política brasileira, embora, utilizando concessão do Governo Federal como os canais de televisão. O sociólogo Karl Mannheim, um pensador representativo de sua época, escreveu em 1950, no livro “Liberdade, Poder e Planejamento Democrático” que não devemos restringir o nosso conceito de poder ao poder político. Para Mannheim o poder de persuasão dos meios de comunicação é considerável. "Deve-se temer menos os governos, que podemos controlar e substituir, e muito mais os poderes privados que exercem sua influencia no 'interior' das sociedades capitalistas", assevera o pensador se referindo a radiodifusão (em 1950 a televisão estava chegando ao Brasil).
O filosofo Paulo Virilio chegou a uma conclusão drástica: "a mídia contemporânea é o único poder que tem a prerrogativa de editar suas próprias leis, ao mesmo tempo que sustenta a pretensão de não se submeter a nenhuma outra”. E para o jornalista Mino Carta a mídia verde-amarela serve ao poder (nós diríamos dos poderosos) desde sempre porque é rosto do próprio. A constante, enfadonha defesa da liberdade de imprensa é tão hipócrita quanto a não menos tediosa profissão de fé na isenção e no pluralismo pontualmente pronunciada em candentes editoriais. A responsabilidade do jornalista passa pela ética, muitas vezes, ignorada e se coloca no mesmo patamar dos donos da mídia. Esta postura leva-nos a uma indagação: como pode um profissional honrado assumir certas posições do patrão que se valem da omissão e, até, da mentira? Eis ai verdadeira traição à prática do jornalismo. "Posturas políticas e ideológicas podem ser criticadas, mas cada um tem direito às suas", Mino Carta conclui, referindo-se a quem manda às favas a responsabilidade da profissão.
Outro aspecto relevante está no fato da grande mídia (leia-se Isto é, Veja, Época, Rede Globo, etc) ignorar o senso crítico do cidadão, comportamento que resvala à boçalidade, tal a parcialidade tendenciosa das notícias, nos comentários inoportunos de pretensos formadores de opinião. Dois exemplos saltam aos olhos e nos colocam na expectativa das eleições presidenciais deste ano: Em 2005 quando São Paulo derretia em água a grande imprensa arvorou-se contra a então prefeita petista de São Paulo, atribuindo toda a culpa do transtorno causado pelas chuvas à administração de Marta Suplicy. O crônico problema das enchentes se repetiu este ano, porém, a impressão que se tem é de que a cidade de São Paulo está acéfala. A mídia preserva a imagem de José Serra (PSDB) de forma grotesca e tendenciosa. Serra é um dos mais fortes representantes da social democracia, a mesma que entregou o patrimônio público ao capital privado no governo de FHC. Da mesma forma procura-se atribuir ao Governo Federal o problema do desleixo das rodovias abandonadas há décadas, com o agravante dos governos estaduais se negarem a entrar com a contrapartida financeira para recuperação da malha rodoviária. No bojo da crise que revelou ao país a hipocrisia das campanhas eleitorais com a utilização do "Caixa 2", surgiram denúncias levianas envolvendo o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o objetivo de enfraquecê-lo na corrida eleitoral de outubro próximo. Felizmente evoluímos. A informação não se tornou monopólio, hoje existe uma cautela diante da xenofobia da imprensa neo-liberal em relação aos que vieram de baixo, e retirantes da Silva. Civitas, Casóis, Garcias e Jabours que fazem das notícias instrumento de interesse e dominação, passam por idiotas ao se fazerem arautos da moralidade e da ética.
A avaliação que fazemos não é inovadora e serve também para nós que escrevemos na pequena imprensa. Mídia e democracia são temas que suscitam teses extesas. Por isso preferimos a reflexão como instrumento de interagir com o leitor. A leitura crítica e reflexiva contrapõe a dominação, - como diz o mineiro, perguntar não ofende. Nesse aspecto saímos do jejum da contestação inerente ao papel exercido pela imprensa (grande ou pequena, nacional ou do interior) com respeito ao leitor. Uma revista cultural deve cumprir a sua missão política. Abominável é o comportamento de se colocar sob uma redoma, ignorando o maior objetivo da imprensa, o de contribuir para promover o crescimento cultural e político do leitor, sob pena de se transformar num expediente de comunicação que trata apenas do sexo dos anjos. O educador pernambucano Paulo Freire avaliou profundamente as frases feitas ou slogans com objetivos educativos. Preceitos e idéias complexas são condensadas nos slogans. O mesmo se passa no campo das teorias políticas, no qual frases como “os fins justificam os meios” transformaram-se em slogans que difundiram aspectos isolados de uma teoria, tornando-se palavras de ordem ou símbolos de correntes de pensamentos; aliás, bem representadas na política municipal. A publicidade e a repetição são expedientes utilizados de longa data pelos regimes totalitários e por grupos avessos a reflexão. Evidentemente existe o interesse por trás da frase feita. O Brasil, segundo o IBGE, deve bater todos os recordes de produção agrícola em 2006 e se tornou o maior exportador de carne do mundo, mesmo com a divulgação da febre aftosa. A produção de cana-de-açúcar aumentou com o fato inédito do aumento do preço, também dos derivados, como o álcool. O grande mérito da política agrícola do governo atual está no fato da retirada dos subsídios internacionais a partir de 2008, expressivo êxito diplomático do Governo Lula com efeitos positivos na exportação da soja e do algodão. Na agricultura familiar o Brasil se tornou modelo, para os países emergentes, na disponibilidade de recursos e eficiência. A frase estampada até nos carros dos pequenos agricultores “Lulla, a nova praga da agricultura” me faz lembrar outros slogans inventados pelos latifundiários, homens de poder que atrasaram a reforma agrária e contribuíram com a ditadura militar pós 64.
Estas e outras “leréias” de ano eleitoral já começaram. Cabe às pessoas questionarem colocando o senso crítico para funcionar. No livro “Pedagogia do Oprimido”, em especial, mas em todos os outros que escreve, Paulo Freire recupera a posição de homens e mulheres como sujeitos da história. Mostra que as transformações históricas não se dão exclusivamente na dimensão das objetividades (economia, política, ideologia, etc.), mas na dialética entre o mundo subjetivo e o objetivo, ou seja, "na relação que os sujeitos, mulheres e homens, estabelecem entre si e com as estruturas”, inclusive as mais próximas como a do lugar em que vivemos. A realidade existente em minha cidade contempla meus anseios individuais? e coletivos? a partir da realidade podemos estabelecer o modo de agir.
A última eleição municipal trouxe um retrocesso na construção de uma sociedade pluralista e cidadã. Criou-se uma dualidade pretensamente de opostos. Por omissão o PT deixou de disputar o pleito para prefeito para apoiar um candidato do PMDB, tão conservador quanto o candidato do PFL que venceu as eleições.
O prejuízo imediato foi a falência do Fundo Municipal de Habitação que deixou de existir após as promessas de perdão das dívidas dos mutuários com o Fundo.
Após construir um bairro in-teiro a administração popular do PT de Nobuhiro Karashima ficou a mercê de desastrosa campanha de promessas. Agora, após um ano de Governo Joaquim Rosa Pinheiro (PFL), as edificações do Cajuru II no bairro Perpétuo Socorro não saíram dos alicerces por absoluta falta de recursos e vontade política de continuar o Programa Habitacional do município.
O paternalismo existente entre deputados e administração pública continua inalterado. Neste aspecto o deputado Nárcio Rodrigues (PSDB) se manteve coerente em buscar estabelecer com o prefeito atual aliança eleitoral divulgando os recursos patrocinados pelo Governo Aécio Neves. A sociedade não se livrou do engodo que perpetua no poder deputados despachantes (ou vice-versa). Dos projetos sociais então existentes, salvou somente o bolsa-família com recursos do Governo Federal.
Passados 380 dias da posse dos eleitos no município necessário se faz trazer as perguntas que vão provocar mudanças locais e nacionais se formos capazes de respondê-la com atitudes: Quais os candidatos que utilizam o caixa 2 na campanha eleitoral? Houve mensalão antecipado para a mudança do voto de Alex Bovi (PMDB) na eleição da Mesa Diretora da Câmara de Vereadores em 2005? Aconteceu redução de gastos na Câmara de Vereadores com a redução de cadeiras? São perguntas que não ofendem e afastam a hipocrisia se obtiverem respostas sinceras. Nos 12 anos da Revista Destaque In, este seria o editorial mais longo das 66 edições publicadas. Porém revela a independência e o compromisso dos editores com as questões políticas da cidade e do país. Da nossa parte fica o compromisso de manter a defesa permanente da cultura e da história, sem contudo, esquecer que esses valores fazem sentido quando acompanhados da consciência de cidadania e consciência política.
C.A. Cerchi é escritor e membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro
Para Saber mais:
BELUZZO, Luiz Gonzaga. Mídia e Democracia. Carta Capital. Ano XII nº362- pág. 23
CARTA, Mino. E Seria esse o jornalismo?
Idem - pág. 22
O filosofo Paulo Virilio chegou a uma conclusão drástica: "a mídia contemporânea é o único poder que tem a prerrogativa de editar suas próprias leis, ao mesmo tempo que sustenta a pretensão de não se submeter a nenhuma outra”. E para o jornalista Mino Carta a mídia verde-amarela serve ao poder (nós diríamos dos poderosos) desde sempre porque é rosto do próprio. A constante, enfadonha defesa da liberdade de imprensa é tão hipócrita quanto a não menos tediosa profissão de fé na isenção e no pluralismo pontualmente pronunciada em candentes editoriais. A responsabilidade do jornalista passa pela ética, muitas vezes, ignorada e se coloca no mesmo patamar dos donos da mídia. Esta postura leva-nos a uma indagação: como pode um profissional honrado assumir certas posições do patrão que se valem da omissão e, até, da mentira? Eis ai verdadeira traição à prática do jornalismo. "Posturas políticas e ideológicas podem ser criticadas, mas cada um tem direito às suas", Mino Carta conclui, referindo-se a quem manda às favas a responsabilidade da profissão.
Outro aspecto relevante está no fato da grande mídia (leia-se Isto é, Veja, Época, Rede Globo, etc) ignorar o senso crítico do cidadão, comportamento que resvala à boçalidade, tal a parcialidade tendenciosa das notícias, nos comentários inoportunos de pretensos formadores de opinião. Dois exemplos saltam aos olhos e nos colocam na expectativa das eleições presidenciais deste ano: Em 2005 quando São Paulo derretia em água a grande imprensa arvorou-se contra a então prefeita petista de São Paulo, atribuindo toda a culpa do transtorno causado pelas chuvas à administração de Marta Suplicy. O crônico problema das enchentes se repetiu este ano, porém, a impressão que se tem é de que a cidade de São Paulo está acéfala. A mídia preserva a imagem de José Serra (PSDB) de forma grotesca e tendenciosa. Serra é um dos mais fortes representantes da social democracia, a mesma que entregou o patrimônio público ao capital privado no governo de FHC. Da mesma forma procura-se atribuir ao Governo Federal o problema do desleixo das rodovias abandonadas há décadas, com o agravante dos governos estaduais se negarem a entrar com a contrapartida financeira para recuperação da malha rodoviária. No bojo da crise que revelou ao país a hipocrisia das campanhas eleitorais com a utilização do "Caixa 2", surgiram denúncias levianas envolvendo o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o objetivo de enfraquecê-lo na corrida eleitoral de outubro próximo. Felizmente evoluímos. A informação não se tornou monopólio, hoje existe uma cautela diante da xenofobia da imprensa neo-liberal em relação aos que vieram de baixo, e retirantes da Silva. Civitas, Casóis, Garcias e Jabours que fazem das notícias instrumento de interesse e dominação, passam por idiotas ao se fazerem arautos da moralidade e da ética.
A avaliação que fazemos não é inovadora e serve também para nós que escrevemos na pequena imprensa. Mídia e democracia são temas que suscitam teses extesas. Por isso preferimos a reflexão como instrumento de interagir com o leitor. A leitura crítica e reflexiva contrapõe a dominação, - como diz o mineiro, perguntar não ofende. Nesse aspecto saímos do jejum da contestação inerente ao papel exercido pela imprensa (grande ou pequena, nacional ou do interior) com respeito ao leitor. Uma revista cultural deve cumprir a sua missão política. Abominável é o comportamento de se colocar sob uma redoma, ignorando o maior objetivo da imprensa, o de contribuir para promover o crescimento cultural e político do leitor, sob pena de se transformar num expediente de comunicação que trata apenas do sexo dos anjos. O educador pernambucano Paulo Freire avaliou profundamente as frases feitas ou slogans com objetivos educativos. Preceitos e idéias complexas são condensadas nos slogans. O mesmo se passa no campo das teorias políticas, no qual frases como “os fins justificam os meios” transformaram-se em slogans que difundiram aspectos isolados de uma teoria, tornando-se palavras de ordem ou símbolos de correntes de pensamentos; aliás, bem representadas na política municipal. A publicidade e a repetição são expedientes utilizados de longa data pelos regimes totalitários e por grupos avessos a reflexão. Evidentemente existe o interesse por trás da frase feita. O Brasil, segundo o IBGE, deve bater todos os recordes de produção agrícola em 2006 e se tornou o maior exportador de carne do mundo, mesmo com a divulgação da febre aftosa. A produção de cana-de-açúcar aumentou com o fato inédito do aumento do preço, também dos derivados, como o álcool. O grande mérito da política agrícola do governo atual está no fato da retirada dos subsídios internacionais a partir de 2008, expressivo êxito diplomático do Governo Lula com efeitos positivos na exportação da soja e do algodão. Na agricultura familiar o Brasil se tornou modelo, para os países emergentes, na disponibilidade de recursos e eficiência. A frase estampada até nos carros dos pequenos agricultores “Lulla, a nova praga da agricultura” me faz lembrar outros slogans inventados pelos latifundiários, homens de poder que atrasaram a reforma agrária e contribuíram com a ditadura militar pós 64.
Estas e outras “leréias” de ano eleitoral já começaram. Cabe às pessoas questionarem colocando o senso crítico para funcionar. No livro “Pedagogia do Oprimido”, em especial, mas em todos os outros que escreve, Paulo Freire recupera a posição de homens e mulheres como sujeitos da história. Mostra que as transformações históricas não se dão exclusivamente na dimensão das objetividades (economia, política, ideologia, etc.), mas na dialética entre o mundo subjetivo e o objetivo, ou seja, "na relação que os sujeitos, mulheres e homens, estabelecem entre si e com as estruturas”, inclusive as mais próximas como a do lugar em que vivemos. A realidade existente em minha cidade contempla meus anseios individuais? e coletivos? a partir da realidade podemos estabelecer o modo de agir.
A última eleição municipal trouxe um retrocesso na construção de uma sociedade pluralista e cidadã. Criou-se uma dualidade pretensamente de opostos. Por omissão o PT deixou de disputar o pleito para prefeito para apoiar um candidato do PMDB, tão conservador quanto o candidato do PFL que venceu as eleições.
O prejuízo imediato foi a falência do Fundo Municipal de Habitação que deixou de existir após as promessas de perdão das dívidas dos mutuários com o Fundo.
Após construir um bairro in-teiro a administração popular do PT de Nobuhiro Karashima ficou a mercê de desastrosa campanha de promessas. Agora, após um ano de Governo Joaquim Rosa Pinheiro (PFL), as edificações do Cajuru II no bairro Perpétuo Socorro não saíram dos alicerces por absoluta falta de recursos e vontade política de continuar o Programa Habitacional do município.
O paternalismo existente entre deputados e administração pública continua inalterado. Neste aspecto o deputado Nárcio Rodrigues (PSDB) se manteve coerente em buscar estabelecer com o prefeito atual aliança eleitoral divulgando os recursos patrocinados pelo Governo Aécio Neves. A sociedade não se livrou do engodo que perpetua no poder deputados despachantes (ou vice-versa). Dos projetos sociais então existentes, salvou somente o bolsa-família com recursos do Governo Federal.
Passados 380 dias da posse dos eleitos no município necessário se faz trazer as perguntas que vão provocar mudanças locais e nacionais se formos capazes de respondê-la com atitudes: Quais os candidatos que utilizam o caixa 2 na campanha eleitoral? Houve mensalão antecipado para a mudança do voto de Alex Bovi (PMDB) na eleição da Mesa Diretora da Câmara de Vereadores em 2005? Aconteceu redução de gastos na Câmara de Vereadores com a redução de cadeiras? São perguntas que não ofendem e afastam a hipocrisia se obtiverem respostas sinceras. Nos 12 anos da Revista Destaque In, este seria o editorial mais longo das 66 edições publicadas. Porém revela a independência e o compromisso dos editores com as questões políticas da cidade e do país. Da nossa parte fica o compromisso de manter a defesa permanente da cultura e da história, sem contudo, esquecer que esses valores fazem sentido quando acompanhados da consciência de cidadania e consciência política.
C.A. Cerchi é escritor e membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro
Para Saber mais:
BELUZZO, Luiz Gonzaga. Mídia e Democracia. Carta Capital. Ano XII nº362- pág. 23
CARTA, Mino. E Seria esse o jornalismo?
Idem - pág. 22

