Desprezo pela Cidade




José Ribeiro de Oliveira e assessores junto aos operáriosRelutamos em escrever sobre a questão do asfaltamento da cidade. Porém acreditamos que este debate é a ponta de um iceberg. A questão é mais profunda e envolve aspectos ideológicos e políticos. Os donos de frotas e de carros importados que nos perdoem insistir nesta questão. Necessário se faz refletir sobre a cidade que queremos para os nossos filhos e gerações vindouras, levando em conta a limitação imposta pela conjuntura nacional e até internacional. A expansão da cana-de-açúcar, por exemplo, as vésperas de se instalar de forma ostensiva e intensiva no município se deve a exigência do mercado externo que não tem preocupação significativa com os efeitos predatórios da monocultura. A meta é produzir álcool para exportar em detrimento da produção de alimentos. A exportação tem prioridade até no governo, dito de esquerda, como o do presidente Lula. Nada contra o asfalto, solução criativa de utilização dos resíduos da indústria do petróleo. Afinal as rodovias asfaltadas facilitam a vida de todos e permitem de fato a circulação das riquezas (os donos de pedágios que o digam). Calceteiros e operários de serviços urbanos tornaram-se raridade no serviço público. Os profissionais da cantaria sentem dificuldades em retornar a ativa, os tempos são outros. Entretanto, o bom senso jamais saiu de moda e aponta no sentido do que está feito, não precisa fazer. O bom senso recomenda respeito ao calçamento que dobrou o espigão dos 60 anos de existência desfrutando de boa qualidade, malgrado as agressões e falta de manutenção. Rua Major  LimaConservar, restaurar e promovê-lo seria a forma ideal e econômica para a salubridade e para a preservação da qualidade de vida dos habitantes que tiveram como co-fundador da cidade o Capitão Ferreira. Para as ruas sem nenhum tipo de calçamento a modernidade do asfalto é aceitavel, evidentemente com a infra-estrutura da qual dispõe o centro da cidade (galerias, rede de água e esgoto etc.). Topamos permanecer nesse assunto, formulando o apelo para a preservação da praça Getúlio Vargas e os logradouros, avenidas e ruas que ainda mantém a essência de uma cidade com vocação turística. No caso da praça Getúlio Vargas emergem construções significativas como a Igreja Matriz, o Paço Municipal e a residência do Dr. Juca (hoje de Dª. Hebe Ribeiro Portella), sólida construção edificada com estilo realçado pelo serviço de cantaria em quartzito ou pedra rosa, tonalidade existente somente em Sacramento (Dr. Juca foi o prefeito que fez o calçamento das principais ruas de Sacramento). O entorno desses bens patrimoniais guarnecidos pelo Jardim Público e por uma história admirável merece preservação carinhosa dos administradores. São patrimônios edificados que não deveriam ter o mesmo destino da Rua Capitão Ferreira, Vigário Paixão e Major Lima e tantas outras, hoje com significativos sinais de depreciação (asfalto carcomido ou estragado), resultado do equívoco administrativo em cobrir de asfalto os paralelepípedos faceados idênticos aos atrativos turísticos da Europa como o da Praça Vermelha no Kremlin em Moscou ou ainda no Vaticano ou França. Em Sacramento o calçamento tupiniquim de pedra rosa ou basalto endurecido tornou-se “démodé” e na concepção do modernismo predatório já não fazem parte da nossa identidade cultural. Sintoma de aculturamento agravado pela dificuldade em distinguir modernidade de bom senso. Nítida manifestação burguesa dos que se deliciam com a divisão e a disputa autofágica do povo capaz de transformar a cidade em grupos antagônicos. Rua Orestes CanassaComportamento que aniquila a cidadania. Procedimento pequeno no qual a cor se torna paradigma de identificação. Como é impossível tingir o asfalto de amarelo, há contentamento em colocar na rua uma ridícula faixa de propaganda política no período eleitoral: "Esta rua foi asfaltada por fulano de tal". Assim como foi extinto o fundo municipal de habitação, arrebanteram com a política de assistência social, eliminaram também o orçamento participativo onde a população discutia ANTES o que é melhor para a cidade. Enquanto, o bom senso, a cidadania, a participação e a democracia não prevalecerem seremos uma comunidade dividida e triste onde o maior lenitivo é a certeza da transitoriedade do poder político.Rua inominada