Ditadura Nunca Mais
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Autor: Carlos Alberto Cerchi
Há trinta anos Sacramento viveu o pesadelo da opressão vivida por milhares de brasileiros entre 31 de março de 1964 ao início dos anos 80. A abertura política que proporcionou a Lei da Anistia, a reformulação partidária, a Constituinte e as eleições diretas iniciaram no Governo de Ernesto Geisel (1974 a 1978).
Os "anos de chumbo" assim chamados, deixaram seqüelas. A repressão e o cerceamento dos direitos políticos marcados pela censura da imprensa e pelos Atos Institucionais foram as características dos regimes autoritários instalados na América Latina naquele período.
A pequena Sacramento amanheceria o dia 25 de março de 1976 com as suas ruas ocupadas por tropas militares. Publicamos abaixo a crônica do prof. Walmor Júlio Silva que revela a sua agonia naqueles difíceis dias. Em 1976 a sociedade civil já havia superado grande parte dos problemas vividos no regime discricionário graças à resistência das entidades de classe como a Associação Brasileira de Imprensa-ABI, Ordem dos Advogados do Brasil- OAB, Igrejas, estudantes e a oposição exercidas pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Foram necessárias medidas casuísticas como a nomeação dos senadores biônicos para a ARENA, partido de sustentação do regime autocrático continuar no poder até a eleição do Presidente João Batista Figueiredo (1979 a 1984) pelo Colégio Eleitoral. Figueiredo passou a faixa presidencial a um civil, José Sarney ainda eleito indiretamete em 1985 como vice-presidente do mineiro Tancredo Neves que não pôde assumir devido a sua gravíssima doença que o levou a morte em 21 de abril de 1985. Em 1976 os brasileiros ainda não sabia que os desdobramentos seriam esses.
Trechos do Jornal "O Estado do Triângulo"
Na mesma quadra dos acontecimentos que levaram a detenção do professor Walmor Julio Silva o estudante José Inácio, também foi preso nas mesmas circunstancias, provocando apreensão à sua família (seus irmãos e sua mãe passaram por momentos de angústia e sofrimento). O jovem José Inácio da mesma forma que o professor Walmor deixou-se levar confiando na Justiça da Providência. Os dois foram vítimas da famigerada Lei de Segurança Nacional que permitia a prisão sumária dos cidadãos brasileiros. Quais os motivos do regime prender jornalistas e estudantes?
Os motivos... ora os motivos!
Esses acontecimentos não poderiam passar em branco. Uma lacônica referência seria suficiente, mesmo experimentando a sensação de dor por lembrar dias de profunda incerteza que teimam incomodar os que se preocupam com a liberdade e com a cidadania.
Como repúdio a toda forma de autoritarismo e abuso de poder a revista Destaque IN manifesta sua solidariedade àqueles cidadãos com este registro. Mais pelo trabalho dignificante que estas pessoas exercem na sociedade brasileira do que como vítimas da repressão, merecem o nosso respeito e consideração. Walmor Júlio Silva é diretor da E. Estadual Cel. José Afonso de Almeida em Sacramento e José Inácio é diretor de Segurança de uma usina de açucar no município de Frutal- MG
A luta contra a intolerância se faz também com o registro da História.
Ditadura nunca mais.
Os "anos de chumbo" assim chamados, deixaram seqüelas. A repressão e o cerceamento dos direitos políticos marcados pela censura da imprensa e pelos Atos Institucionais foram as características dos regimes autoritários instalados na América Latina naquele período.
A pequena Sacramento amanheceria o dia 25 de março de 1976 com as suas ruas ocupadas por tropas militares. Publicamos abaixo a crônica do prof. Walmor Júlio Silva que revela a sua agonia naqueles difíceis dias. Em 1976 a sociedade civil já havia superado grande parte dos problemas vividos no regime discricionário graças à resistência das entidades de classe como a Associação Brasileira de Imprensa-ABI, Ordem dos Advogados do Brasil- OAB, Igrejas, estudantes e a oposição exercidas pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Foram necessárias medidas casuísticas como a nomeação dos senadores biônicos para a ARENA, partido de sustentação do regime autocrático continuar no poder até a eleição do Presidente João Batista Figueiredo (1979 a 1984) pelo Colégio Eleitoral. Figueiredo passou a faixa presidencial a um civil, José Sarney ainda eleito indiretamete em 1985 como vice-presidente do mineiro Tancredo Neves que não pôde assumir devido a sua gravíssima doença que o levou a morte em 21 de abril de 1985. Em 1976 os brasileiros ainda não sabia que os desdobramentos seriam esses.
Trechos do Jornal "O Estado do Triângulo"
O Dia Mais longo de Minha Vida
25 de março de 1976
- 9:40 horas
Saio de casa para o trabalho. Apenas duas quadras de distância me separam da Escola Estadual Coronel José Afonso de Almeida, onde leciono Língua Portuguesa e Literatura. Encontro-me na saída com Julio, (um grande amigo), na camionete do pai, que me oferece uma carona naquele pequeno espaço.
(...)
Neste momento, estaciona uma Rádio Patrulha, da Polícia Militar e dela saem seis soldados, alguns portando metralhadoras e num silêncio quebrado pelo som seco daqueles "bate-butes", dirigiram-me até a porta detrás da R.P., onde depois de me revistarem as pernas e pegarem meu material escolar, colocaram-me naquele cubículo escuro.
Eu não disse uma palavra.
Eu não resisti um momento sequer.
Acreditei na verdade e na justiça. Para onde me levassem, minha consciência era tranqüila, certo de que o bem triunfaria.
O calor entretanto me sufocava (tirei a camisa). A agonia imensa que invadia meu corpo era suportada pelo amor que é mais forte que a morte. Pensei em todos meus irmãos, do mundo todo, na esperança profunda de um reencontro com minha mãe, o meu pai; um reencontro com minhas crianças, a minha cidade, o meu mundo, a minha flor (sem ninguém a rega-la), um reencontro permanente com o homem. Eu tinha necessidade de ser livre, porque não fiz mal nenhum.
(...)
Num restaurante qualquer da BR-262, desci pela primeira vez. Acompanhado pelos guardas, sentia naqueles passos tímidos a grandeza do universo, a de ter aquela terra firme onde pisar... meus pés fundiam-se naquele chão e para mim era tão importante poder andar.
(...)
Eram 18:30 hs do dia 26/04/1976, no gabinete do Delegado da Polícia Federal, na presença de Dr. Ramalho Inspetor- e diretores do Sindicato dos Jornalistas Demóstenes Romano Filho, Délio Rocha de Abreu, Carlos Lindemberg, Genoveva Ruis Dias e cinegrafista da Rede Globo, recebia do Delegado substituto Dr. Walter Rios, a ordem de Liberdade. Era o fim de um triste pesadelo.
Prof. Walmor Julio Silva
Jornal O Estado do Triângulo - Ano VIII - n.123 de 11/04/1976
Página 08
Na mesma quadra dos acontecimentos que levaram a detenção do professor Walmor Julio Silva o estudante José Inácio, também foi preso nas mesmas circunstancias, provocando apreensão à sua família (seus irmãos e sua mãe passaram por momentos de angústia e sofrimento). O jovem José Inácio da mesma forma que o professor Walmor deixou-se levar confiando na Justiça da Providência. Os dois foram vítimas da famigerada Lei de Segurança Nacional que permitia a prisão sumária dos cidadãos brasileiros. Quais os motivos do regime prender jornalistas e estudantes?
Os motivos... ora os motivos!
Esses acontecimentos não poderiam passar em branco. Uma lacônica referência seria suficiente, mesmo experimentando a sensação de dor por lembrar dias de profunda incerteza que teimam incomodar os que se preocupam com a liberdade e com a cidadania.
Como repúdio a toda forma de autoritarismo e abuso de poder a revista Destaque IN manifesta sua solidariedade àqueles cidadãos com este registro. Mais pelo trabalho dignificante que estas pessoas exercem na sociedade brasileira do que como vítimas da repressão, merecem o nosso respeito e consideração. Walmor Júlio Silva é diretor da E. Estadual Cel. José Afonso de Almeida em Sacramento e José Inácio é diretor de Segurança de uma usina de açucar no município de Frutal- MG
A luta contra a intolerância se faz também com o registro da História.
Ditadura nunca mais.
