Ditadura Nunca Mais




Há trinta anos Sacramento viveu o pesadelo da opressão vivida por milhares de brasileiros entre 31 de março de 1964 ao início dos anos 80. A abertura política que proporcionou a Lei da Anistia, a reformulação partidária, a Constituinte e as eleições diretas iniciaram no Governo de Ernesto Geisel (1974 a 1978).

Os "anos de chumbo" assim chamados, deixaram seqüelas. A repressão e o cerceamento dos direitos políticos marcados pela censura da imprensa e pelos Atos Institucionais foram as características dos regimes autoritários instalados na América Latina naquele período.
    
A pequena Sacramento amanheceria o dia 25 de março de 1976 com as suas ruas ocupadas por tropas militares. Publicamos abaixo a crônica do prof. Walmor Júlio Silva que revela a sua agonia naqueles difíceis dias. Em 1976 a sociedade civil já havia superado grande parte dos problemas vividos no regime discricionário graças à resistência das entidades de classe como a Associação Brasileira de Imprensa-ABI, Ordem dos Advogados do Brasil- OAB, Igrejas, estudantes e a oposição exercidas pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Foram necessárias medidas casuísticas como a nomeação dos senadores biônicos para a ARENA, partido de sustentação do regime autocrático continuar no poder até a eleição do Presidente João Batista Figueiredo (1979 a 1984) pelo Colégio Eleitoral.  Figueiredo passou a faixa presidencial a um civil, José Sarney ainda eleito indiretamete em 1985 como vice-presidente do mineiro Tancredo Neves que não pôde assumir devido a sua gravíssima doença que o levou a morte em 21 de abril de 1985. Em 1976 os brasileiros ainda não sabia que os desdobramentos seriam esses.

Trechos do Jornal "O Estado do Triângulo"


O Dia Mais longo de Minha Vida

 25 de março de 1976
 - 9:40 horas

Saio de casa para o trabalho. Apenas duas quadras de distância me separam da Escola Estadual Coronel José Afonso de Almeida, onde leciono Língua Portuguesa e Literatura. Encontro-me na saída com Julio, (um grande amigo), na camionete do pai, que me oferece uma carona naquele pequeno espaço.

(...)
Neste momento, estaciona uma Rádio Patrulha, da Polícia Militar e dela saem seis soldados, alguns portando metralhadoras e num silêncio quebrado pelo som seco daqueles "bate-butes", dirigiram-me até a porta detrás da R.P., onde depois de me revistarem as pernas e pegarem meu material escolar, colocaram-me naquele cubículo escuro.

Eu não disse uma palavra.
Eu não resisti um momento sequer.

Acreditei na verdade e na justiça. Para onde me levassem, minha consciência era tranqüila, certo de que o bem triunfaria.
O calor entretanto me sufocava (tirei a camisa). A agonia imensa que invadia meu corpo era suportada pelo amor que é mais forte que a morte. Pensei em todos meus irmãos, do mundo todo, na esperança profunda de um reencontro com minha mãe, o meu pai; um reencontro com minhas crianças, a minha cidade, o meu mundo, a minha flor (sem ninguém a rega-la), um reencontro permanente com o homem. Eu tinha necessidade de ser livre, porque não fiz mal nenhum.
(...)
Num restaurante qualquer da BR-262, desci pela primeira vez. Acompanhado pelos guardas, sentia naqueles passos tímidos a grandeza do universo, a de ter aquela terra firme onde pisar... meus pés fundiam-se naquele chão e para mim era tão importante poder andar.

(...)
Eram 18:30 hs do dia 26/04/1976, no gabinete do Delegado da Polícia Federal, na presença de Dr. Ramalho  Inspetor- e diretores do Sindicato dos Jornalistas Demóstenes Romano Filho, Délio Rocha de Abreu, Carlos Lindemberg, Genoveva Ruis Dias e cinegrafista da Rede Globo, recebia do Delegado substituto Dr. Walter Rios, a ordem de Liberdade. Era o fim de um triste pesadelo.

Prof. Walmor Julio Silva
Jornal O Estado do Triângulo - Ano VIII - n.123 de 11/04/1976
Página 08


Na mesma quadra dos acontecimentos que levaram a detenção do professor Walmor Julio Silva o estudante José Inácio, também foi preso nas mesmas circunstancias, provocando apreensão à sua família (seus irmãos e sua mãe passaram por momentos de angústia e sofrimento). O jovem José Inácio da mesma forma que o professor Walmor deixou-se levar confiando na Justiça da Providência. Os dois foram vítimas da famigerada Lei de Segurança Nacional que permitia a prisão sumária dos cidadãos brasileiros. Quais os motivos do regime prender jornalistas e estudantes?
    
Os motivos... ora os motivos!
    
Esses acontecimentos não poderiam passar em branco. Uma lacônica referência seria suficiente, mesmo experimentando a sensação de dor por lembrar dias de profunda incerteza que teimam incomodar os que se preocupam com a liberdade e com a cidadania.
    
Como repúdio a toda forma de autoritarismo e abuso de poder a revista Destaque IN manifesta sua solidariedade àqueles cidadãos com este registro. Mais pelo trabalho dignificante que estas pessoas exercem na sociedade brasileira do que como vítimas da repressão, merecem o nosso respeito e consideração. Walmor Júlio Silva é diretor da E. Estadual Cel. José Afonso de Almeida em Sacramento e José Inácio é diretor de Segurança de uma usina de açucar no município de Frutal- MG
    
A luta contra a intolerância se faz também com o registro da História.
    
Ditadura nunca mais.