O Beco Sem Saída do Socialismo
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Autor: Destaque In
Porém não somos capazes de desenvolver os sistemas que permitam a esse homem render o que deve render, e as falhas em nossa mecânica fazem com que tendamos a convertê-lo em máquina, inclusive em coisa como o trabalho voluntário, transformando-o em mecanismo. Não se cumpra (como eu poderia dizer) do indivíduo para fora, para a sociedade que é a forma em que o trabalho rende seu fruto (...)
Mas há certa preguiça mental em se aprofundar no problema, saber o que estamos fazendo e tratar de encontrar seu porquê. Há excessiva disciplina em seguir a linha, faltando uma disciplina consciente para buscar os porquês; é preciso estudar todos esses temas de construção do socialismo, dos problemas que coloca a construção do homem é preciso estudá-los.
(...)
Então, essa ligação de que você fala, da autogestão (financeira ou cálculo econômico) pela massa, é mentira. Na autogestão o que existe é uma valorização do homem pelo que ele rende, o que o capitalismo faz perfeitamente, perfeitissimamente, mas tampouco há uma ligação entre a massa e o dirigente, nenhuma. (...) Bom, quando nós começamos a nos colocar estas coisas não sei se ainda há algum sobrevivente daquela época. Porque diziam: "Estão revisando", "isto é preciso perguntar ao partido", "porque isto está feio". Foi aí que se começou a colocar, claro, foi uma coisa violenta. A Bíblia, que é o "Manual" (da Academia de Ciências da URSS), porque desgraçadamente a Bíblia não é "O Capital" aqui, mas sim o "Manual" (...).
A única coisa em que eu creio é que nós temos que ter a suficiente capacidade de destruir todas as opiniões contrárias baseados em argumentos ou, se não, deixar que as opiniões se expressem. Opinião que temos de destruir com pancada é opinião que tem vantagem sobre nós. Não é possível destruir as opiniões na porrada, e é isso precisamente o que mata todo o desenvolvimento livre da inteligência (...).
Nós somos demasiado ignorantes individualmente, cada um de nós, para podermos elaborar toda uma teoria sólida. E, além disso, em geral as pessoas inteligentes e sábias tampouco elaboram teorias sólidas, menos ainda nestes momentos do mundo. Então, é preciso se ajudar, vocês deveriam se ajudar mais, deveriam pensar, colaborar, ler todas as que estejam ao alcance de todos.
Frente à concepção do plano como uma decisão econômica das massas, conscientes de seu povo, elas se comportam como um placebo, em que os mecanismos econômicos decidem o seu sucesso. É mecanicista, antimarxista. As massas devem ter a possibilidade de dirigir seus destinos, resolver quanto vai para acumulação e quanto para o consumo, a técnica econômica deve operar com estas cifras e a consciência das massas assegurar o seu cumprimento.
O Estado atua sobre o indivíduo que não cumpre seu dever de classe, punindo-o ou premiando-o conforme o caso; estes são fatores educativos que contribuirão para a transformação do homem, como parte do grande sistema educacional do socialismo. É o dever social do indivíduo que o obriga a atuar na produção, não seu estômago. A isso deve tender a educação.
O interesse pessoal deve ser reflexo do interesse social; basear-se naquele para mobilizar a produção é retroceder diante das dificuldades, dar asas à ideologia capitalista.
É no momento crucial da URSS, saindo de uma guerra civil longa e custosa, quando Lenin, angustiado diante do quadro geral, retrocede em suas concepções teóricas, que começa um longo processo de hibridização, culminando com as mudanças atuais na estrutura da direção econômica.
T
udo parte da concepção errônea de querer construir o socialismo com elementos do capitalismo, sem mudar-lhe realmente a significação. Assim se chega a um sistema híbrido, que leva a um beco sem saída, dificilmente perceptível, o que obriga a novas concessões dos mecanismos econômicos.
Sabe-se há muito tempo que o ser social determina a consciência e se conhece o papel da superestrutura; agora assistimos a um fenômeno interessante, que não pretendemos ter descoberto, mas sobre cuja importância tratamos de aprofundar: a inter-relação da estrutura com a superestrutura. Nossa tese é que as mudanças produzidas com a NEP calaram tão fundo na vida da URSS que marcaram com seu sinal toda essa etapa. E seus resultados são desalentadores: a superestrutura capitalista foi influenciando de maneira cada vez mais marcada as relações de produção, e os conflitos provocados pela hibridização que significou a NEP se estão resolvendo a favor da superestrutura; está havendo um retorno ao capitalismo.
Trecho de texto publicado na revista “Praga”- Junho de 1998
