Avaliar o quê? Quem?




Avaliar o que? No momento em que o resultado de uma avaliação sistêmica mexeu com o pensamento dos educadores uberabenses, nada mais oportuno que falar sobre avaliação.
Mas que tipo de avaliação? Não no sentido de enumerar as mais variadas formas de avaliação que temos hoje em dia, mas sim no sentido de pensar se apenas alunos devem ser avaliados. Infelizmente, o que temos nas escolas hoje são um bando de pessoas que optaram por ser professores e não educadores, seja por ser uma faculdade de acesso mais fácil, ou menos onerosa, seja por ser esta uma profissão que tem fama de ser “procura marido”.
Avaliar é refletir sobre uma determinada realidade, a partir de dados e informações, e emitir um julgamento que possibilite uma tomada de decisão.


A avaliação antecede, acompanha e sucede o trabalho pedagógico, possuindo funções diferentes, conforme o momento em que se dá.
 A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) nº 9394/96, no que tange à avaliação na educação básica no artigo 24, inciso V, diz:
   
“A verificação do rendimento escolar observará os seguintes critérios:
    a) avaliação contínua e cumulativa do desempenho no aluno, com prevalência dos     aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de     eventuais provas finais;......”
Daí a necessidade de uma avaliação democrática e participativa, já que apresenta maior preocupação com os aspectos qualitativos contribuindo para ajudar no alcance dos objetivos do trabalho pedagógico. Quando bem feita, seguida de decisões e ações que ajudam os alunos a aprender mais e melhor, ela garantirá bons resultados na avaliação final.


A avaliação é o ponto de partida de todo e qualquer trabalho pedagógico e, também, o ponto de chegada.
Mas, é importante que o professor organize seu trabalho tendo sempre em vista o projeto político-pedagógico, o plano de ação e o regimento da escola. A avaliação escolar deve ser feita a partir de três eixos, que constituem os pilares do Projeto Político Pedagógico da escola:
Ético-político-ideológico: a avaliação escolar tem sentido enquanto levantamento de elementos dificultadores do processo, e diagnóstico de aspectos a serem revistos ou retomados, buscando a melhoria da qualidade de desempenho pessoal e dos recursos didáticos utilizados.

Epistemológico: a elaboração de instrumentos de avaliação exige do professor um embasamento epistemológico que garanta sua adequação ao nível de desenvolvimento cognitivo dos alunos, não esquecendo que é função da escola hoje ensinar o aluno a pensar, a buscar e processar informações adequadamente.
Didático-metodológico: a prova deve ser um momento de aprender a pensar, de construção do conhecimento, de aprendizagem espontânea e não de pressão psicológica, como tem acontecido, para que não ocorra fracasso na mesma. Leitura e interpretação de texto devem ser assunto de todas as disciplinas, justamente para auxiliar o educando numa prova.

O professor/educador interessa-se em permitir ao aluno a possibilidade de êxito e propiciar-lhe a chance de acertar. Faz-se necessária uma avaliação diagnóstica  que busca investigar os conhecimentos, competências e habilidades que o aluno traz  envolvendo uma rede de relações em que estão incluídos aquele que ensina e aquele que aprende. Mas, também se faz necessária uma avaliação formadora, no sentido de acompanhar a aprendizagem, identificando os sucessos e as dificuldades desse processo de desenvolvimento, inclusive para reorientá-lo. Ela tem caráter de continuidade, visando reorganizar as ações educativas subseqüentes. Ela constitui um momento de parada para reflexão e revisão do processo pedagógico, numa perspectiva bem mais ampla de toda a dinâmica escolar.


Esta “nova” maneira de avaliar exige mudança de mentalidade, exige substituição de culturas cristalizadas que necessitam de amadurecimento...
Numa escola comprometida com a melhoria da qualidade, não se penaliza o aluno; cobra-se competência do professor, que faz justiça aos alunos, respeitando seus direitos e ensinando-lhes, assim, a lição de cidadania.

É hora de repensarmos o que a escola tem feito conosco e o que temos feito com a escola...
Apesar de a escola ser o local onde se aprende, a valorização do aluno tem recaído sobre os acertos, sendo, muitas vezes, estimulada a competição, sem a existência de uma reflexão sobre os procedimentos que identifiquem se houve aprendizagem. Infelizmente, dada esta concepção, o aluno estuda apenas para passar de ano; e, a avaliação, para muitos, está tendo como objetivo apenas classificar o aluno como melhor ou pior.

Para Vygotsky, todo o indivíduo tem um nível de desenvolvimento real; e conhecendo este nível de desenvolvimento dos alunos, o professor poderá utilizar o desafio cognitivo que conduz à ampliação das estruturas mentais, sem frustrá-los, porque respeita os limites de seu potencial. Assim, a avaliação deve centrar-se no processo, sem comparação com padrões externos. O erro passa a ser encarado como indicador de caminhos para novas intervenções, constituindo o que ele é capaz de fazer sozinho.

Ainda para Vygotsky, o papel do professor é de desafiar as estruturas mentais dos alunos, ajudando-os a ordenar e compreender o mundo, simbolizando, transformando, quantificando e organizando os dados da realidade, classificando-os por critérios de semelhança ou de diferença, haja vista que ele é visto como mediador no processo de ensino/aprendizagem.

Mas, será que, sozinho, o aluno faz o sucesso ou o fracasso escolar?
A auto-avaliação de cada um dos elementos envolvidos no processo ensino/aprendizagem e a contribuição dos responsáveis serão de grande valia na construção de mais este saber. Fazem com que o educador transforme seu trabalho na sala de aula, oferecendo atividades produtivas, desafiadoras, que provoquem a produção de novos conhecimentos, em um constante recriar.

É pensando no aluno, nos seus direitos à educação e à cidadania que a escola deve se organizar e se estruturar, o que resulta no trabalho de diversas pessoas, em diferentes níveis do sistema educacional. A forma como a escola se acha organizada é expressão de idéias daqueles que dela participam e daqueles que elaboram as diretrizes para sua organização.

Entretanto, parece que muitos profissionais da educação não estão satisfeitos com as mudanças...
“Se você quiser, pode continuar se lamuriando a respeito dos problemas da avaliação e da     profissão. Motivo para reclamar é o que não falta. Pode ficar tranqüilo. Ninguém é obrigado a     sair da mediocridade. Ninguém é obrigado a tomar a iniciativa. Ninguém é obrigado tomar a     iniciativa. Ninguém é obrigado a ser agente da própria história. Ninguém é obrigado a se     comprometer com uma educação democrática”. (HOFFMANN)

E então?!...
Novas idéias abrem possibilidades de mudança. O que muda a realidade é a prática. A mudança de mentalidade se dá pela mudança de prática. Avaliação é um processo contínuo que visa a um diagnóstico.

Muitas mudanças estão ao alcance do professor e da escola. O professor que quer superar o problema da avaliação precisa, antes de qualquer coisa, realizar uma autocrítica, abrindo mão do uso autoritário da avaliação, revendo sua metodologia de trabalho em sala de aula e alterá-la, caso seja necessário, redimensionando o uso da avaliação, mudando a postura diante dos resultados dela , para então rever sua prática pedagógica.

O que se espera é que os seus resultados constituam parte de um diagnóstico, e que a partir da análise da realidade sejam tomadas decisões sobre o que fazer para superar os problemas constatados: perceber a necessidade do aluno e intervir na realidade para ajudar a superá-la.

Os bons e os maus alunos são inteiramente fabricados pelos professores. Para que uma classe tenha bons resultados é necessário que o professor tenha confiança nos seus alunos e, acima de tudo, seja um bom professor. Bom, não no sentido de passar a mão na cabeça de seus alunos, mas sim de ensinar de uma forma lúdica, prazerosa e que faça com que o aluno realmente aprenda e apreenda o que lhe foi oferecido.

    “É função da escola hoje ensinar o aluno a pensar, a buscar e a processar informações     adequadamente. É papel do professor desafiar as estruturas mentais dos alunos, ajudando-os a     ordenar e compreender o mundo, simbolizando, transformando, quantificando e organizando     os dados da realidade.” (Rosa Maria Calaes de Andrade)

    O aluno é o principal sujeito do processo de ensino/aprendizagem, mas não o único a ser avaliado. Mas, antes de pensarmos em avaliá-lo, é necessário que pensemos a avaliação de uma maneira mais global, envolvendo tudo e todos que participam do processo educacional que acontece na escola. A avaliação é uma postura de vida. Pressupõe reflexão, diálogo. Conosco e com o outro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Lei de Diretrizes e bases da Educação Nacional: nova LDB (Lei nº 9394). Rio de Janeiro: Qualitymark Ed., 1997.

FERREIRA, Jorge Benício Félix. O desafio de mudar na prática a avaliação.

ARAÚJO MACHADO, Maria Auxiliadora Campos  Parecer nº 1.158/98:Informativo MAI de Ensino. Belo Horizonte. Lancer ed. Fevereiro, 1999.

HOFFMANN, Jussara. Avaliação: mito e desafio. Porto Alegre: Educação e Realidade, 1991.

PIAGET, Jean. Psicologia e Pedagogia. Rio de Janeiro: Forense, 1970.

ROMEIRO, Alice de La Rocque. Um olhar sobre a avaliação hoje. In: Salto para o futuro: um olhar sobre a escola. Secretaria de Educação à Distância. Brasília. Ministério da Educação, Seed, 2000.

VASCONCELOS, Celso. Avaliação. Cadernos do Libertad vol. 3, 1994.

VYGOTSKY, L. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

ALÉXIA SALIM PAIVA.
Formada em Licenciatura Plena em Pedagogia pela Universidade Federal de Uberlândia, em parceria com a Faculdade de Educação de Uberaba e pós-graduada em Educação Infantil pelo Instituto de Pesquisas Avançadas em Educação. É pedagoga do Sistema Municipal de Ensino de Uberaba, atuando como Supervisora escolar na Escola Municipal Professor José Macciotti, em Uberaba-MG. alexiasalim@uol.com.br