Paradoxo e Democracia
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“Daí a constatação óbvia de que o Jornalismo independente significa permamente incômodo, sempre enfrentando atritos com quem manipula a informação, esteja esse manipulador no governo ou na oposição. Quando o poder e a imprensa se dão muito bem, o leitor se dá mal”
Gilberto Dimenstein in Armadilhas do poder - 1990
O maior desafio da Revista Destaque IN é a constante busca de se manter atual, compatibilizando artigos culturais e atualidades. Diariamente o mundo se transforma, a revista é bimestral, em dois meses notícias tornam-se defasadas e as considerações ficam difíceis de serem feitas diante dos fatos simultâneos que fazem da notícia mercadoria perecível e da reportagem, pegadas da história.
O espaço editorial reservado para avaliação das eleições pretende aprofundar questões que terão desdobramentos no futuro próximo, principalmente no pleito municipal de prefeito e vereadores em 2008. É impossível para os meios de comunicação ignorar a repercussão das eleições sobre as nossas vidas. A crítica objetiva e necessária da imprensa contribui para a democracia e ajuda no aprimoramento da cidadania.
Comportamentos individuais e coletivos revelam o modo de vida de uma comunidade e devem ser questionados. Este papel de “advogado do diabo” deve ser desempenhado pela imprensa falada e escrita.
Fazem parte desse universo heterogêneo votos em branco, nulos, eleitores que não compareceram ou justificaram a ausência. Todos participaram a seu modo do processo legitimado pelo envolvimento coletivo da sociedade. As eleições tornaram-se um fenômeno de massas, com repercussão impossível de ser ignorada. Haverá especulação e ênfase até à posse dos eleitos, no dia 1º de janeiro próximo.
Esse fato atualíssimo em nossa revista é um resgate ao tempo dilatado de 60 dias da sua circulação periódica. Entretanto centenas de nuances desse fenômeno poderiam ser abordadas com inesgotáveis implicações ideológicas, sociais, financeiras, sociológicas e culturais.
Modestos, ousamos avaliar as eleições no microcosmo do município, sem contudo perder o norte de âmbito estadual e federal do processo eleitoral ocorrido em outubro de 2006 no Brasil. A impressão que se tinha no primeiro turno, realizado no dia 03 de outubro, era de que os 17 mil votos de Sacramento haviam se transformado em 170 mil votos, face ao número assombroso de candidatos que aportaram na cidade convencidos do pretenso potencial eleitoral.
A invasão da Normandia(1), no final da Segunda Grande Guerra certamente teve menos pára-quedistas, ilustres desconhecidos representados pelos cabos eleitorais foram aqui recebidos com entusiasmo pelos ávidos eleitores e com expressiva votação no minguado universo eleitoral de Sacramento. Dos mais inusitados votos elencados no folclórico universo político, destacou-se a escolha do voto recomendado pelos ocupantes e ex-ocupantes da prefeitura.
Não se pode criticar o mérito e o êxito das pessoas, entretanto Sacramento, nesse caso, é séria candidata a entrar para o livro Guiness com o recorde inquestionável de um candidato proporcional ter mais votos que o candidato majoritário vencedor da eleição presidencial no primeiro turno(2). Francisco T. de Souza Uejo teve 4.619 votos.
O Presidente Lula reeleito conseguiu ultrapassar esta marca somente no 2º turno porque teve 1.050 votos somados aos 3.887 votos do 1º turno (veja o quadro comparativo). Este comportamento tem causas e desdobramentos, e definitivamente não está relacionado com o valor individual dos candidatos.
Durante a campanha eleitoral estabeleceu-se dois blocos de onde sobressaíram candidatos apoiados pelo prefeito Joaquim Rosa Pinheiro e pelo ex-prefeito Nobuhiro Karashima. Findo o 1º turno, os dois líderes evitaram o confronto de prestígio preservando a susceptibilidade dos eleitores e mantendo a expectativa de Sacramento lançar somente dois candidatos nas próximas eleições municipais. Esta seria a melhor visão política para Sacramento? Dividida e vulnerável à predação autofágica do bipartidarismo proporcionado pelas alianças corporativistas?
Seria antecipação da eleição municipal de 2008? Ou a infeliz opção maniqueísta e pequena capaz de transformar a democracia em apenas dois blocos antagônicos, representantes do bem e do mal segundo a ótica e o interesse de cada um? Exagero? Terminado o primeiro turno, com a eleição dos deputados e senadores, a sensação era de apatia e desinteresse para o segundo turno, não fosse a discreta mobilização do PT em busca de votos para Luís Inácio Lula da Silva.
As comemorações pela eleição de deputados através de panfletos e passeatas de ambos os lados revelam o perfil conservador e anacrônico da cidade, e mostram que a busca do poder local compromete o desenvolvimento e torna a cidade refém das vaidades pessoais de seus políticos interessados unicamente na sua carreira em busca da reeleição.
A cidade não viveu o clima de eleição presidencial, os debates realizados na televisão entre Lula e Alckimin mostrando a redenção da democracia na América Latina estavam longe dos sacramentanos, preocupados com desdobramentos domésticos e de imediato vislumbre municipal, como se a cidade estivesse sob uma redoma. Uejo e Fahim catalizaram os interesses domésticos e se tornaram referências ocas e símbolos de eleitores que votam por tabela, sem ideologia, ou melhor, de ideologia burguesa (burgo=cidade).
A história revela o prejuízo que o bipartidarismo provoca, atravacando o desenvolvimento. Faz lembrar do confronto entre udenistas e pessebistas, que trouxe anos de atraso para o país e para Sacramento, no faz e desfaz das currutelas avessas à política positiva e altruísta. Atitudes que resultaram em prejuízo para a população.
A rivalidade entre o PSD e a UDN remonta aos anos 50 e trouxe prejuízos permanentes . Golpes de estado e boicote de benefícios públicos marcaram o atraso político do país e das cidades. Sacramento conseguiu voltar ao passado da disputa política sitiada prejudicial aos interesses populares. Instalou-se a busca do poder pelo poder, onde vigora o abandono de programas eficientes e nota-se o aniquilamento da paz necessária ao governante e a população nos períodos entre eleições.
Comportamento paradoxal do amarelo “é você quem faz” e da policromia de uma pretensa união de partidos, juntos apenas para realilzar a vontade dos postulantes contumazes de retornar à prefeitura como mandatários. Dois blocos, e um atraso refletido na postura que coloca eleição de deputado acima da eleição presidencial.
Comportamento pernicioso de submeter a população ao constrangimento de sentir-se usada. Votar nos candidatos de A ou B, tornou-se monopólio de dois grupos antagônicos e atrasados.
A próxima eleição municipal de 2008 com apenas dois candidatos tem o estigma do plebiscito e conspira contra a democracia. Prenúncio de uma guerra fratricida considerando o comportamento das últimas eleições.
Situação e oposição são dois lados da mesma moeda. Ambas são eleitas. Porém, foram transformadas em maniqueísmo. Uma atrocidade. Cabe ao cidadão sacramentano pronunciar um rotundo não às investidas de tornà-lo refém de interesses outros.o
