Nós e Newton
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Autor: Carlão Pereira
(Autocrítica feita antes da eleição com o dom da profecia. Deu no que deu, eleição de Eliseu Rezende, prosélito da ditadura e senador da república, pelo PFL)
Não apenas, mas política também é feita de símbolos. Falo isso a propósito do processo que levou-nos a uma aliança com o PMDB, sintetizada na candidatura ao senado de Newton Cardoso. Alianças, é certo, são feitas com diferentes.
Também é certo que nosso caótico quadro partidário e nossa maluca legislação eleitoral empurram-nos para alianças pouco ortodoxas. Enquanto não se faz uma reforma política, sem elas é impossível governar.
Mas, voltemos aos símbolos. No imaginário de boa parte de nosso povo Newton e o PT são a clássica mistura que jamais acontece: água e óleo. A pergunta que fica é: em nome de que vamos pedimos votos para Newton Cardoso?
Certamente, o argumento da necessária governabilidade para o presidente Lula alivia pouco. Afinal, o PT lançou candidatos contra TODOS os governos do Sul, onde está parte do melhor PMDB. Sabemos que mandato, na democracia representativa, é delegação. Significa dizer: vá, fale em meu nome, traduza meus desejos, realize a minha vontade, vote como se fosse eu votando!
Onde, quando, com quem discutimos nossa plataforma comum, nosso programa, nossos projetos? Ou política hoje, em tempos pós-modernos, dispensa projetos? Se não há projetos comuns (só dizer que não gosta do Aécio não vale), anseios comuns e, temo dizer, utopias comuns, em nome de que estamos juntos?
Está certo, ganhamos tempo na TV. Isso conta. Está certo, rompemos o isolamento político no Estado. Isso também conta. Mas é só. O partido da transformação e do sonho, do socialista democrático, do “sem medo de ser feliz”, do pão, da terra e da liberdade não pode se contentar com tão pouco. Não gostaria de ver antecipada minha triste intuição de que marchamos celeremente para nos tornarmos o PMDB do século XXI, um grande partido de mandatos, sem projeto nacional.
Sem dramas, e correndo o risco de errar, creio que, ao entregarmos uma vaga de candidato ao senado para Newton Cardoso, ao nos coligarmos nas chapas proporcionais, enganando o eleitor que vota PT e elege PMDB, ou vice-versa, e ao fazermos isso tudo sem uma vírgula programática sequer, nos afastamos cada vez mais de nossa responsabilidade histórica.
Viemos, creio eu, para ajudar a transformar esse país. Para isso empunhamos bandeiras, compramos brigas, perdemos noites, aniversário de filho. Deixamos de ler livros, ver filmes, beber com aquele amigo que não era do PT. Realizamos convenções até no dia das mães. Isso tudo não pode acabar assim. Viemos para fazer este país mais justo, democrático, esperançoso.
P.S: o problema não é fazer alianças, mas o preço que se paga por elas, que, no nosso caso, foi muito alto.
P.S: o problema não é fazer alianças, mas o preço que se paga por elas, que, no nosso caso, foi muito alto.
Antonio Carlos Pereira
é sindicalista e
vereador em Belo Horizonte
é sindicalista e
vereador em Belo Horizonte
