Trairâo " O peixe do norte e o "Fundo do Poço"




Trairão
Os trairões são peixes originários das bacias Amazônica, Araguaia e Tocantins, foram introduzidos pelo homem nos principais rios e represas de todo o país, ou simplesmente fugiram dos cativeiros (pequenas represas), que desaguavam nos rios que se romperam de maneira desastrada. O traíra pertence a família “Erythrinidae”, fazem parte do gênero “hoplias gill”, e são denominadas cientificamente “Hoplias lacerdae”(Ribeiro, 1908), Trairão.

São peixes de grande porte podendo facilmente passar de 80cm, e pesar mais de 15 kg. Tem coloração predominantemente preta. Os trairores são peixes com escamas, possuem hábito alimentar carnívoro, isto é, alimentam-se de peixes, insetos, larvas, anfíbios, répteis, pequenas aves e até ratos. Seu recorde mundial de captura homologado é de 10,25kg fisgado no lago Israel, no Rio Xingu, Brasil, no dia 15 de julho de 2002, pelo multi recordista mundial Capitão Kadu Magalhães. No Rio Grande pela pressão exercida pela pesca predatória, é praticamente impossível capturar espécimes com mais de 5kg.
    
Os trairões são peixes muito agressivos, são pouco seletivos na escolha das iscas, com sua voracidade atacam tudo que se move, é insistente no ataque, podendo escapar durante a captura, e mesmo assim votar a atacar a mesma isca.

Pode ser capturado tanto com iscas naturais quanto com iscas artificiais, onde mostra toda sua força, e grande esportividade, fazendo a alegria dos pescadores esportivos. São peixes com desova parcial (várias desovas por ano), com proliferação alta. Eventualmente são encontrados nas lagoas marginais cuidando dos filhotes, mas preferem os locais mais fundos, e com um pouco de corredeira. Possuem dentição ponteaguda e aparência desagradável. Isto causa medo nos pescadores. Cuidados no seu manuseio são necessários onde acidentes são comuns, pois possui mordida fortíssima.
    
Os trairões são muito admirados, apesar de possuírem muitos “espinhos”, são muito apreciados na culinária, seu filé é delicioso, está entre os melhores que existem, o que faz elevar sua popularidade entre os pescadores. Pode ser criado em cativeiro com sucesso e custo baixo, pois é um peixe rústico, precoce e com excelente ganho de peso.
    
É um peixe exótico no Rio Grande, foi introduzido nas represas do Sudeste de maneira desastrada e, com a apreensão dos biólogos, pois sua reprodução, desenvolvimento e existência ainda são pouco conhecidos da ciência.
    
Por sua esportividade e voracidade se tornaram presas fáceis de pescadores inescrupulosos, e são exterminados por sua aparência, ou simplesmente pela crueldade e selvageria de alguns.
    
A ONG World Wildlife Found, WWF, divulgou recentemente um importante estudo sobre os rios brasileiros. Segundo este estudo somente quatro rios brasileiros de grande porte ainda correm livremente da nascente à foz, ou seja, de onde nascem até onde deságuam. Os quatro rios estudados são Araguaia, Paraguai, Xingu e Madeira. Aliás, são rios de grande importância turística e piscosidade, onde foram quebrados vários recordes mundiais de captura de peixes. De acordo com o estudo estes rios que ainda correm livres estão gravemente ameaçados e expostos à incerteza de projetos de desenvolvimento, e principalmente pela má gestão do homem. Seus ecossistemas podem sofrer danos irreversíveis com a construção de usinas hidrelétricas, ou outras interferências humanas.
    
Especialmente no rio Madeira, rio dos Tucunarés gigantes (Acuo), Raul de Melho Filho afluente do rio Amazonas, existem projetos de construção de duas usinas hidrelétricas no rio Madeira, “Jirau” e “Santo Antonio”. A construção das usinas é citada no estatuto da WWf como a maior e mais terrível ameaça a biodiversidade do rio Madeira. Os impactos negativos seriam estendidos até a ramificação principal do rio Amazonas, e modificaria a geomorfologia das áreas alagadas até os estuários, destruindo toda vida no rio.
    
Na nossa região sabemos muito bem o que isso significa. Ensinava o brilhante cientista e professor Manuel Pereira de Godoy, maior autoridade em biologia de peixes no país, de saudosa memória “quando se fecham as comportas de uma represa num rio que antes corria livremente, primeiro morrem os pequenos vegetais, depois as plantas maiores vão para o fundo das mesmas, produzem o gás metano, altamente tóxico e letal para a maioria dos peixes, aves e animais”, (a liberação do gás metano é um dos principais causadores do aquecimento global).

“Os peixes, aves e animais que sobrevivem ficam tontos e desorientados pela nova e ameaçadora realidade, ou terminam sua vida na boca dos predadores, ou se tornam presas fáceis das redes, dos arpões, da pesca predatória e dos caçadores”.
    
Mas o pior quando se constrói uma hidrelétrica, e se represa um rio é que isso favorece o aparecimento dos esportes náuticos, supervalorizando as terras que margeiam as represas, estimulando a especulação imobiliária. Na maioria dos casos os terrenos são loteados sem projetos, de maneira desordenada e irregular, e os ranchos são construídos de maneira ilícita, com toneladas de concreto suplantando a mata ciliar, dentro da área de preservação permanente, que é de responsabilidade das concessionárias de energia elétrica.

As escadas de transposição de peixes, ou passagens migratórias, também de sua responsabilidade,  sempre são esquecidas. Os ranchos são construídos sem as fossas sépticas despejando lixo, fezes e esgoto doméstico, provocando o assoreamento e transformando as represas num grande deposito de lixo a céu aberto, destruindo e alterando a geomorfologia dos rio que antes corriam limpos e livres. Não é falta de otimismo, é uma descurada realidade.
    
Num mundo cada vez mais caótico e carente por energia elétrica, tornou-se premente estimular e conseguir novas formas de energia, entretanto, sem fazer que isto se torne um “Lance, Kamisase”.
    
Ninguém é contra o progresso e o desenvolvimento, seria ingenuidade ou estupidez querermos voltar ao tempo das cavernas, entretanto, a energia elétrica esta cada vez mais escassa e cara, e a gestão e seus lucros cada vez menos transparentes.