Quero viver muitos anos




Rubem Alves - Quero viver muitos anos

Sim, eu quero viver muitos anos mais. Mas não a qualquer preço. Quero viver enquanto estiver acesa, em mim, a capacidade de me comover diante da beleza.

A acomodação diante da beleza tem o nome de “alegria”, mesmo quando as lagrimas escorrem pela face. A alegria e a tristeza são boas amigas. Assim o disse a minha boa amiga Adélia: “A poesia é tão triste.  Que é bonito encher os olhos de lágrimas. Por prazer da tristeza eu vivo alegre”.

Essa capacidade de sentir alegria é a essência da vida. Quase que disse “vida humana”, mas parei a tempo. Pois é muita presunção de nossa parte pensar que somente nós recebemos esta graça. Aquela farra de pulos, correria, mordidas e gestos de faz-de-conta em que se envolvem minha velha doberman (nunca tive cachorro mais gentil!) e a cocker novinha, nenê, aquilo é pura alegria. E o vôo do beija-flor, flutuando parado no ar, gozando a água fina que sai do esguicho  também isso é alegria. E o meu pai dizia que, quando chovia, as plantas sentiam alegria. Lembrei-me de um místico que orava assim: “Ó Deus! Que aprendamos que todas as criaturas vivas não vivem só para nós, que elas vivam para si mesmas e para Ti. E que elas amam a doçura da vida tanto quanto nós”.

Na alegria, a natureza atinge seu ponto mais alto: ela se torna divina. Quem tem alegria tem Deus. Nada existe, no universo, que seja maior que esse dom. o universo inteiro, com todas as suas galáxias: somos maiores e mais belos do que ele: porque nós podemos nos alegrar diante da beleza dele, enquanto ele mesmo não se alegra com coisa alguma.

Quero viver muitos anos, mas o pensamento da morte não me dá medo. Me dá tristeza. Esse mundo é tão bom. Não quero ser expulso de campo no meio do jogo. Não quero morrer com fome. Há tantos queijos esperando ser comidos. Quando o corpo não tiver mais fome, quando só existir o enfado e o cansaço, então quererei morrer. Saberei que a vida se foi, a despeito dos sinais biológicos externos que parecem dizer o contrário. De fato, não há razões para o medo. Porque só há duas possibilidades. Nada existe depois da morte. Neste caso, eu serei simplesmente reconduzido ao lugar onde estive sempre, desde que o universo foi criado.

Não me lembro de ter sentido qualquer ansiedade durante esta longa espera. Meu nascimento foi um surgir do nada. Se isso aconteceu uma vez, é possível que aconteça outras. O milagre pode voltar a se repetir algum dia. Assim esperava Alberto Caieiro, orando ao Menino Jesus: “... E dá-me sonhos teus para eu brincar / ate'que nasça qualquer dia / que tu sabes qual é...”

Se, ao contrário, a morte for a passagem para um outro espaço, como afirmam as pessoas religiosas, também não há razões para temer. Deus é amor e, ao contrario do que reza a teologia cristã, ele não tem vinganças a realizar, mesmo que não acreditemos nele. E nem poderia ser de outra forma: eu jamais me vingaria dos meus filhos. Como poderia o “Pai Nosso” fazê-lo?

Mas eu tenho medo do morrer. Ele pode ser doloroso.

O que eu espero: não quero sentir dor. Para isso, há todas as maravilhosas drogas da ciência, as divinas morfinas, dolantinas  e similares. Quero também estar junto das coisas e das pessoas que me dão alegria. Quero o meu cachorro  e se algum médico ou enfermeira alegar, em nome da ciência, que cachorros podem transmitir enfermidades, eu os mandarei para aquele lugar. Os que estão morrendo tornam-se invulneráveis.

Eles estão além das bactérias, infecções e contra-indicações. Lembro-me de um velhinho, meu amigo, que no leito de morte disse à filha que gostaria de comer um pastel.  “- Mas papai”, ela argumentou, “fritura faz mal...” ela não sabia que os morituri estão para além do que faz bem e do que faz mal.

Quero também ter a felicidade de poder conversar com meus amigos sobre a minha morte. Um dos grandes sofrimentos dos que estão morrendo é perceber que não há ninguém que os acompanhe até a beira do abismo. Eles falam sobre a morte e os outros logo desconversam: “Bobagem, você logo estará bom...”E eles então se calam, mergulham no silencio e na solidão, para não incomodar os vivos. Só lhes resta caminhar sozinhos para o fim. Seria tão mais bonita uma conversa assim: “Ah! Vamos sentir muito sua falta. Pode ficar tranqüilo: cuidarei do seu jardim.

As coisas que você amou, depois da sua partida vão se transformar em sacramentos: sinais da sua ausência. Você estará sempre nelas...”aí os dois se darão as mãos e chorarão pela tristeza da partida e pela alegria de uma amizade assim tão sincera.

Alguns há que pensam que a vida é coisa biológica, o pulsar do coração, uma onda cerebral elétrica. Não sabem que, depois que a alegria se foi, o corpo é apenas um ataúde. E aí teólogos e médicos, invocando a autoridade da natureza, dizem que a vida física deve ser preservada a todo custo. Mas a vida humana não é coisa da natureza. Ela só existe enquanto houver a capacidade para sentir a beleza e a alegria.

E, assim, apoiados nessa doutrina cruel, submetem a torturas insuportáveis o corpo que deseja partir  cortam-no, perfuram-no, ligam-no a máquinas, enfiam-lhe tubos e fios para que a máquina continue a funcionar, mesmo diante de suas suplicas: “Por favor, deixem-me partir!”E é esse o meu desejo final: que respeitem o meu corpo, quando disser: “Chegou a hora da despedida”. Amarei muito aqueles que me deixarem ir. Como eu disse: amo a vida e desejo viver muitos anos mais, como Picasso, Cora Coralina, Hokusai, Zorba... mas só quero viver enquanto estiver acesa a chama da alegria.