O Andarilho - a existência itinerante
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O andarilho tem, na literatura brasileira, precedente ilustre na figura de Rubião, de Quincas Borba (1891), romance de Machado de Assis, e no filme homônimo, de 1986, do cineasta Roberto Santos, nele baseado.
No romance fixam-se fundamentos e motivos do desnorteamento e da impulsão da personagem, eliminado, no entanto, em larga elipse, seu périplo entre o Rio de Janeiro e Barbacena, acompanhado de seu cão Quincas Borba.
No filme, o início dessa peregrinação (ou sina) é revelado em síntese simbólico-realista de grande beleza imagética.
Conquanto Machado, no ilimitado espaço de sua percepção do mundo, tenha sugerido o drama, a tradição publicística brasileira, ao que se sabe, não desenvolveu o tema, a não ser em reportagens jornalísticas.
Agora, em Uberaba, no livro O Andarilho – Quem é Ele?, edição do autor, de dezembro de 2005, a questão não só é retomada, como aprofundada na pesquisa e investigação de causas e efeitos, origens e conseqüências, condições e situação, ser e estar no mundo, suscitando e expondo em dezoito capítulos os problemas que envolvem o andarilho em sua peregrinação, seja atingido pelos rigores do ambiente (frio, calor, ventos, chuva, sol), seja sofrendo fisicamente as conseqüências das agruras a que é submetido (fome, canseira, magreza, face cadavérica), até adentrar nas causas que o afrontaram e o expeliram do seio da família e de um lugar na sociedade, lançando-o, pelas adversidades da existência e transtornos da mente, às sendas do mundo, sem rumo e destino.
Esse levantamento minucioso e pertinaz é efetuado em cima da realidade concreta de casos particulares estudados e revelados numa série de capítulos esclarecedores, a exemplo de “Preciosidades Sobre o Andarilho”, “E Quando Surge o Andarilho?”.
Não é, pois, apenas a motivação geradora e mantenedora desse estado de coisas que preocupa e ocupa o autor, João Eurípedes Sabino. Mas, também, o cotidiano do andarilho nas minúcias de sua existência nômade e modos e maneiras de resolução dos problemas e dificuldades que também palmilham sua itinerância. Não só isso, porém. Vai o autor, munido do interesse e da curiosidade que movem e alicerçam os grandes empreendedores e seus empreendimentos, além das aparências e das exteriorizações, também buscando e perquirindo o entendimento (no caso, o desentendimento) da vida e do mundo que povoa (e enevoa) as mentes obnubiladas de suas personagens.
Além disso, João Eurípides Sabino infunde a seu interesse e curiosidade preocupação e ternura por nossos semelhantes atirados e mergulhados nas estradas do país, espaço de seus delírios e descaminhos.
Sensibiliza e preocupa o autor a condição de seres humanos desenraizados, geralmente traumatizados, muitas vezes mentalmente debilitados, sem que a sociedade e a ciência tenham mecanismos suficientes para seu atendimento e tratamento, visando a recomposição de suas vidas ou pelo menos para torná-las menos desumanas.
A apropriada interrogação do título (O Andarilho – Quem é Ele?) não reclama, portanto, apenas resposta biográfica. Exige muito mais.
