Em busca do Tabuleiro



Partimos de Sacramento, num fusca recém reformado capaz de vencer os desafios das estradas de terra maltratadas nessa época de chuvas atípicas em relação aos outros anos pelo excesso.

Vicente Hermógenes, depositário de memórias resgatadas pela revista Destaque IN

Éramos quatro, Vicente Hermógenes, antigo morador do Desemboque, seu sobrinho Eurípedes que sabe dirimir a estrada que leva à fazenda Alvarenga, nosso destino, dos inúmeros caminhos capazes de confundir o motorista vindo de fora, Alessandro Abdala e Carlos Alberto Cerchi, editores da Revista Destaque IN.

A chuva intermitente que caíra nos primeiros dias do ano proporcionara uma trégua na sexta feira véspera do dia de São Sebastião, em 19 de janeiro de 2007. O nosso objetivo era encontrar o Tabuleiro, 30 km para diante do arraial e Paróquia do Desemboque, hoje distrito de Sacramento. Desemboque é a gênese da ocupação do Triângulo Mineiro, de onde partiam entradas e bandeiras na devassa de serras, chapadões e vertentes de água na geografia dessa mesopotâmia existente na parte ocidental da Serra da Canastra entre os rios Grande e Paranaíba confluentes do caudaloso Rio Paraná, após a formação do “nariz”de Minas Gerais no mapa político atual.

Vicente de Araújo Lima (Vicente Hermógenes)

Os historiadores regionais informam que o Desemboque, primeiro núcleo de população branca dessa vasta mesopotâmia teria surgido na segunda metade da era setecentista no período que passou para história do Brasil como “ciclo do ouro”. Mineiros vindos de Tamanduá, hoje Itapecerica encontraram o precioso metal nas margens do Rio das Abelhas hodiernamente chamado Rio das Velhas ou Araguari para diferenciá-lo do seu homônimo afluente do Rio São Francisco, que também nasce na Serra da Canastra na vertente oposta do Rio Araguari.

O objetivo da viagem estava na busca do Tabuleiro existente na geografia chucra dos campos limpos característicos das margens do rio das Velhas. As primeiras catas exploradas pelo entrante primitivo invasor dos domínios dos ferozes caiapós e dos negros quilombolas fugidos das minas gerais, foram abertas nos terrenos do Tabuleiro. O interesse por este objetivo surgiu da leitura do livro “História de Uberaba e a Civilização do Brasil Central” de Hildebrando de Araújo Pontes:

Mapa ilustrativo da localização do Tabuleiro

Após alguns dias de marcha, transposto o Rio São Francisco, depararam, adiante, um grande rio em cuja margem esquerda, descobrindo ouro em abundância, se estabeleceram em um campo elevado que, por isso se chamou Tabuleiro. Aí se entregaram ao trabalho da mineração que já não oferecendo grande interesse, fora abandonado” 2ª Ed. da Academia de Letras do Triângulo Mineiro -1978, pág. 48.

O Tabuleiro seria hoje o Desemboque, não fosse o ataque dos índios caiapós aos primeiros garimpeiros. Do confronto do branco invasor com índios resultou na retirada dos mineiros (na acepção da palavra) para a região do atual Desemboque onde o ouro de aluvião também aflorou em abundância.

Aproximadamente 260 anos após esta retirada estávamos em busca do misterioso Tabuleiro como primícias do Desemboque, núcleo originário irradiador da povoação do antigo Sertão da Farinha Podre, hoje Triângulo Mineiro, região de grande importância política e econômica para Minas Gerais e a região Sudeste.

Eurípedes e Alessandro sobre o cascalho lavado no período do “Ciclo do Ouro”

O retorno ao passado é também retorno às contradições históricas e as dúvidas da memória atávica existente nos últimos remanescentes capazes de tornar a história mais interessante pelos vestígios concretos capazes de dar significado ao fenômeno de ocupação geográfica caracterizado nesta região do Brasil Central pelos homens de diversas etnias com legado de bravura nos episódios vividos por heróis e vilões, opressores e oprimidos evidenciados e narrados sob a ótica e o arbítrio dos escritores.

Procuramos valorizar e registrar a lembrança de Vicente Hermógenes de 86 anos, resquício da tradição oral reforçada pela leitura do livro de H. Pontes que possibilita a identificação do Tabuleiro mais de 260 anos depois, ou pelo menos fornecer subsídios para estudos mais consistentes para recuperar a memória regional e confirmar o caminho percorrido pelos primeiros entrantes do Triângulo Mineiro.

Algumas evidências ficaram registradas nesta busca do Tabuleiro a 18 km rio acima, do distrito do Desemboque, local coincidente com as descrições históricas, como a existência de uma grande planície na margem esquerda do rio das Velhas em forma de tabuleiro, contrastando com as serras e quebradas da região. Outros fatos reveladores como a existência do pequeno riacho com o nome de “córrego do Tabuleiro” e as catas seculares do garimpo retratado pelos montes de pedras lavadas, rejeito da atividade mineradora artesanal mostram a intensa atividade humana em eras passadas. Uma capoeira abriga barrancas escavadas e abandonadas na incerteza da existência compensatória do ouro de ínfimo no cascalho compacto que alimentou sonhos de riqueza e opulência dos pioneiros que se fixaram à ribanceira de córregos e rios desemboquenses.

Tabuleiro, na região do Desemboque

O lugar encontra-se numa fazenda chamada Alvarenga, uma das propriedades oriundas do latifúndio Bonsucesso originário da Fazenda Nova Suécia do Cônego Hermógenes Casimiro de Araújo Bruonswick, inventariada em 1862. Atualmente encontra-se formada em pastagens para criação de gado, cujos proprietários residem em Uberaba.

Do outro lado do Rio das Velhas, município de Tapira, encontra a “Mata Grande”, com informação da existência de vestígios arqueológicos de índios.

Enfim havíamos cumprido a proposta de constatação do local primitivo com referencias prováveis do Tabuleiro.

No retorno a Sacramento, indagações permanecem desafiadoras e instigam ao comportamento crítico.

No Desemboque mergulhamos no “poço do Biba”, no córrego das pedras, divisa natural da Fazenda Nova Suécia, latifúndio no qual se encontra a Fazenda Alvarenga e dezenas de outras fazendas com esta denominação até no ribeirão da Parida, divisa do Parque Nacional da Serra da Canastra.

O Desemboque agoniza vitima do abandono e do ostracismo. Uma faixa de pano na casa de residência coberta de telhas de amianto revela a campanha eleitoral do prefeito eleito e algoz do lugar. Outra faixa no casarão colonial confirma o processo de aculturação permitido pela administração pública.

No minguado contingente de pessoas que moram no Desemboque não tem resquício do opulento Julgado goiano até 1816 que abrigou etnias várias. Porém existe atmosfera de preservação na natureza rios de água extremamente limpos, pássaros livres de cantos inexistentes no nosso mundo de cidades barulhentas onde o individualismo prospera.

O dia está terminando, percorremos o caminho de volta em direção ao poente. Estrada de cascalho e areia, terreno de frágil consistência. Nas cercanias acentuadas erosões. Voçorocas profundas pelo uso equivocado da terra. Além, as florestas contínuas de pinus e eucaliptos substituem os cerrados vestigiais na estrada mais larga do Chapadão da Azagaia e do Bugre, nomes que permaneceram embora os chapadões tenham desaparecido.

Casas abandonadas revelam o êxodo rural e alimentam ainda a crendice de assombração em casos dramatizados por “Seu Vicente”.

Boiada na  estrada de retorno para Desemboque

Após a transposição da ponte do ribeirão Rifaina o padrão de terras modifica e revela a uberdade do solo de basalto decomposto. Lavouras e pastagens mostram porque a agricultura substituiu a exploração do ouro e provocou a migração das famílias para oeste do Desemboque, que povoaram as cidades de Sacramento, Uberaba, Uberlândia e demais cidades dessa vasta região triangulina.

Ao longe a claridade de Sacramento transmite a sensação de modernidade digna de elogio à ciência como a maior e mais romântica invenção: a luz.

O presente ensaio não tem pretensões acadêmicas de fundo histórico embora sirva de roteiro para pessoas habilitadas a fazê-lo. Atende oportunamente a demanda existente na nossa auto identificação como indivíduos sedentos de cultura em busca de sua gênese como fator de cidadania.

Esta busca remete-nos à dor existencial provocada pela angústia despertada intuitivamente pelas contradições existentes em nós mesmo se impregnadas na trajetória do ser humano na sua passagem pela vida.

Os sentimentos universais despertados pela busca de identidade revelam a necessidade de fugir do isolamento e caminhar na construção do conhecimento necessário na tentativa de dar as respostas mais elementares às perguntas primitivas de onde viemos e porque estamos aqui. As contradições permanecem e repeti-las é uma forma de mantermos vivos na busca de resposta definitivas.

A literatura proporciona aos mortais “ouvirem vozes falando de tudo em todas as formas possíveis... precisamos desse espaço” ousamos considerá-lo sagrado e absolutamente necessário.