Um olhar para o futuro: a nossa casa, a nossa referência




A tecnologia na velocidade contada de minuto Um olhar para o futuro: a nossa casa, a nossa referênciaa minuto em nossos dias, é um desafio quando nos faz comparar o que de moderno ontem fora, hoje faz-se obsoleto. Através da comunicação da internet não se cultiva mais a atração que se dera em demasiada aclamação, por ser de novo hoje o momento crucial de nova apresentação, com motivos virtuais de esplendorosa beleza que a tecnologia propõe com seus neologismos da computação tomados de empréstimos da informática, por nos ver adentrar ilusoriamente no interior dos espaços virtuais que nos exibem ao fascínio das técnicas e da arte do 3D.

Fazem-se negociações por e-mails; uma compra pela internet; administra-se uma empresa on-line; não existe mais o cotidiano entre os transeuntes; sai-se às pressas pelas ruas e faz-se serviço de banco; perdeu-se também o calor de um cafezinho com o gerente de uma loja ou com os companheiros de trabalho. Perdera-se fisicamente o olhar para o horizonte, devido o caminhar com um aparelho de telefone celular ao ouvido, sem tomar sentido pelas vias, sem notar os bons-dias, boas-tardes, boas-noites dos cidadãos que passam despercebidos... sem notar as estrelas, nem o luar, nem a beleza da claridade do dia.

Não se vê mais a cidade com suas formas arquitetônicas de um dia atual e dos dias do passado. Diz-se que o homem hoje se encontra mais frio e solitário, vive dia e noite diante de um computador e caminha com o seu Pen Drive, notebook, Palm top, Top-line para onde ele vá. Falar em ir parece um paradoxo, pois com a tecnologia que se faz, o homem moderno não precisa sair de casa para trabalhar. Opera suas contas bancárias on-line, seu negócio é do tipo “trabalhe em casa” e com comandos a toques digitais.

Quando se vasculha o passado em pesquisas de documentos de censos ocorridos, ou documentos de famílias e de testamentos, são levantados dados que nos permitem concluir o quanto o tempo se fazia demorar mais a passar, pelos registros do andamento das obras, da preocupação dos arquitetos que viam ocorrer a mudança dos estilos, porquanto duravam suas impertinências com suas teses adversas. Diante das casas burguesas de 300 ou 400m2, e outros tantos cômodos e quartos descritos nestes documentos dos séculos XIX e começo do XX, como os pardieiros e amontoados de badulaques, de gente amontoadas nos pequenos espaços insalubres. Por outro lado, quem pôde mais fez surgir no fim do século XIX um novo tipo de moradia, a residência “grão burguesa”, longe do centro das cidades, como a arquitetura das estações balneárias. Num sistema socialista, com métodos revolucionários a partir de uma arquitetura que buscava a inclusão social quando uma parte da Europa experimentou depois da Revolução Francesa, como os Falanstérios ou palácios societários que foram executados dentro de um sistema socialista na França do fim do século XIX criados por Charles Fourier, mas ficaram ao desprezo por causa da ganância de uma elite de domínio que se alternava no poder e da consolidação da social democracia, que tudo fez e faz somente em comum acordo do benefício próprio.

Porém a arquitetura em suas formas também vê o desenrolar dos processos desde os primórdios, dos seus contorcidos estilos de adornos dos símbolos, às retilíneas que o modernismo agora exigirá. Antevendo a globalização, em 1897, Adolf Loos, entre tantos de seus artigos escritos, recrudesce diante da incompreensão de seus opositores, argumentando que o ornamento é um desperdício da força de trabalho com mais horas de trabalho e menor remuneração do que uma obra lisa, para um projeto moderno e social. Adolf Loos se enquadra dentro do sistema capitalista para um financiamento de conjuntos habitacionais, pelo desenvolvimento mais rápido e mais barato para a obra.

Antes, em 1892 o escritor e jornalista Martgomery Shuyler publicou um livro sobre a arquitetura americana, fazendo referência ao pensamento de Adolf Loos sobre a fachada lisa e limpa dizendo: “se experimentássemos raspar completamente as fachadas dos edifícios das nossas ruas verificaríamos que tínhamos simplesmente tirado toda a arquitetura, e que o edifício ficava tão bom como estava antes”, e implica a esse conceito o “Um olhar para o futuro”, deixando claro que a forma limpa vem se contrapondo com o rebuscamento desde o neoclássico e se estabilizando no “menos é mais” do arquiteto Mies Van Der Rohe, e nas retilíneas do chamado pós-modernismo.

Já a frase do escritor francês Gustave Flaubert “Desde a invenção do ônibus, a burguesia está morta” é reafirmada no fim do século XX, ao se dizer que a burguesia está falida. Quando nos deparamos com os novos ricos que são hoje os trabalhadores que deram ”certo”: os jogadores de futebol, os pagodeiros e os sertanejos em evidência ganhando somas absurdas em suas apresentações, e atuando como reformistas na arquitetura atual, mas distantes de uma cultura tradicional.

Por estas diretrizes disparadas a rumos ermos, o século XXI amanheceu com um novo conceito de moradia: distancia-se agora de nossos dias aquela repartição da casa burguesa, com salas sem funções e com suas fachadas suntuosas de demonstração de poder. Faz-se agora o principal, o necessário para servir a uma família, um casal ou metrossexual.

Dessa maneira é observado um novo modelo que atenda às necessidades do cliente, aglutinado ao jargão do “eu só volto para casa para dormir”, pois atualmente o trabalho exige que esposa e marido se atem o dia todo na empresa, no seu local de trabalho, e os filhos em escolas e cursos extras pelo dia e também só regressem à noite para o repouso. E neste caso a moradia deve ser ou estar edificada e identificada com o perfil da família do morador.

Hoje não se recebem mais visitas em casa, e esta tornou-se sobremaneira o nosso refúgio de descanso, de lazer, construído de acordo com nossas necessidades e perfis. Salas de banhos espaçosas, com ante-salas conjugadas, mesa de massagens, banheiras de hidro de última geração, pequena estação de trabalho com notebook, estante com tv e aparelhos de som e de dvd, barzinho, e tudo em sistema automatizado. E quando se sai desse “banheiro” totalmente relaxado, e por que não, também informado ? - para um jantar, para um teatro - ou se passa para o quarto onde somente o sono o separa de um novo dia de trabalho. Este novo conceito de moradia traz à arquitetura as opções que demandam as mudanças do cotidiano, acompanhando a velocidade do tempo, e o modo de vida de um cidadão excepcional, ou de uma família que exige um projeto arquitetônico inusitado, conforme as suas exigências e necessidades.

O loft também, de repente ganhou notoriedade, onde um espaço amplo se reparte em espaços de ambientes agradáveis com acabamentos rústicos ou então modernos, e detalhes sofisticados com design exclusivamente encomendados. O design de interiores é agora o responsável pelas formas internas, materializando nos objetos e materiais que despendiam ao conjunto que transformam um layout em plena realidade multicor, na repartição e criação do mobiliário que identifica o morador. E aquele que vê no mínimo de área, o necessário para a sua sobrevivência, mas o faz com gosto e usa a praticidade, e realça a criatividade ao modelo do designer e arquiteto Philippe Starck, que em seus singulares projetos de residências, de hotéis e de mobiliários ousados, é reconhecido pelo mundo. Neste quesito designer o Brasil desponta no cenário mundial, apresentando vários nomes de sucesso, entre eles os irmãos Campanas, reconhecidos e premiados internacionalmente.

O homem por si não se identifica sem identificar-se pela sua moradia! Desde os primórdios que ele se apresenta com a sua identificação por símbolos: a primeira foi o nome, depois as cédulas de identificação, certidões, etc., mas o homem de lugar nenhum torna-se perigoso. Acalenta-se aquele que pode ir e pode voltar em seu ponto de referência.

Quando Kant exclama “mas o domínio privado por excelência é a casa” no livro Maneira de Morar de Michele Perrot, pág.308, ele queria dizer que a liberdade da humanidade está no estável, no contido, dentro da casa, cercada de muros. A sua afirmação é atual a cada dia, pois a nossa moradia é a nossa identidade, o nosso lugar de existência, que é moral e política: o espelho do morador!

Carlos Donizete Bertolucci, membro da União Brasileira deCarlos Donizete Bertolucci Escritores(UBE) e da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, é formado em Design de Interiores pela Universidade de Uberaba-MG, e pós-graduando em Arquitetura de Interiores e Cenografia na Universidade de Franca-SP.