Música e afeto na familia de imigração italiana
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Reflexões motivadas por texto utilizado em prova de conhecimentos básicos da UNB, e originalmente publicado em Destaque IN e Espaço Acadêmico
O Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (CESPE) é o órgão que realiza o vestibular da Universidade de Brasília, assim como diversos concursos públicos em todo o país. Além do vestibular, há uma outra forma de ingresso nos curso de graduação da Universidade de Brasília: trata-se da "transferência facultativa", por seleção de universitários provenientes de qualquer Instituição de Ensino Superior, nacional ou estrangeira.
A primeira etapa da seleção para admissão nos cursos de graduação da UnB, por transferência facultativa, no primeiro período letivo de 2006, foi a da "análise do histórico escolar da Instituição de Ensino Superior (IES) de origem". Na segunda etapa, foi aplicada a Prova de Conhecimentos Básicos de Língua Portuguesa e Matemática. Na terceira, a Prova de Conhecimentos Específicos. Para as 217 vagas, foram aprovados apenas 61 acadêmicos, conforme o Edital n. 8, de 20.04.06.
A Prova de Conhecimentos Básicos de Língua Portuguesa, aplicada em 19.03.2006, incluiu um trecho de meu artigo "Olhos nos olhos do desenhista Rugendas: música e afeto na família escrava", originalmente publicado na Destaque-In, Revista Cultural de Sacramento e região, ano II, n. 61, janeiro/fevereiro, 2005, cuja versão on-line do texo pode ser acessada pelo endereço: Destaque In também disponibiliza versão on-line do texto: http://destaquein.sacrahome.net/node/37, e na revista digital Espaço Acadêmico, n. 44, janeiro, 2005.
O site, www.espacoacademico. com.br/044rea.htm dá acesso ao artigo, na Espaço Acadêmico.
Em 22.12.06, tomei conhecimento da inclusão do artigo na prova da UnB, ao consultar, através da internet, as citações e referências a meus textos e atividades. http://www.cespe.unb.br/Vestibular/TF%5F06%5F01/arquivos/TF_PROVA.PDF é o site que dá acesso ao caderno da referida prova da UnB:
[PDF] (PDF). Para dar eficácia a seus objetivos, os " ... Luiz A. Giani. Olhos nos olhos do desenhista Rugendas: música e afeto na família. escrava. ... www.cespe.unb.br/vestibular/TF_06_01/ arquivos/TF_PROVA.PDF
O texto extraído do artigo "Olhos nos olhos do desenhista Rugendas: música e afeto na família escrava", seguido das questões de n. 1 a 8, dá início à prova. Após, sucederem-se as questões de n. 9 a 50, com base nos seguintes textos: "Novas regras para uma sociedade nova", abordando concepções de Domenico De Masi (fonte: www.imapes.br); "Aprendendo a viver", de Clarice Lispector; "A alma do circo", de Ricardo Soares; um texto sem título, de Maria T. Gomes; um texto de João R. Torres e um conto sobre Adão e Eva, da obra "Contos: uma antologia", de Machado de Assis.
Abaixo, o trecho do artigo, seguido das 8 questões e do gabarito, extraídos da Prova de Conhecimentos Básicos de Língua Portuguesa preparada e aplicada pelo CESPE, da UnB, em 2006:
- 1 Falar sobre a presença do afeto na família escrava leva-nos a associações com a atenção, cuidados, carinhos, agrados e variadas formas de apoio e relacionamento
- 4 prazeroso presentes nas rodas de música, dança e demais artes, além de todo tipo de brincadeiras, jogos, rezas, festas, refeições etc.
- 7 Hoje, já é farta a literatura que enfatiza a alegria dos escravos e seus descendentes, no Brasil. A esta cultura africana dionisíaca contrapõe-se a civilização européia e 10 cristã, que, há vários séculos, vem recebendo críticas históricas sobre suas características castradoras, de sofrimento, dor e culpa. Para dar eficácia a seus objetivos, os 13 “civilizados” cristãos inventaram mecanismos disciplinares e repressivos fundados na alegada existência do diabo, do pecado mortal e da pena capital, o inferno eterno. Sabe-se 16 que as idéias e as ideologias adquirem força material, dominando, subjugando, amordaçando a própria sociedade que as inventou. Livrar-se delas é tarefa extremamente difícil 19 para o indivíduo. Quando os indivíduos o conseguem é porque já se constituíram condições sociais favoráveis, independentemente, em grande parte, da própria vontade dos 22 indivíduos. Luiz A. Giani. Olhos nos olhos do desenhista Rugendas: música e afeto na família escrava. Internet: http://www.espacoacademico.com.br> (com adaptações).
Com relação às idéias e a aspectos morfossintáticos do texto acima, julgue os itens que se seguem.
- 1 - Depreende-se do texto que, nas famílias de tradição européia e cristã, de modo geral, a educação fundamenta-se na disciplina e na repressão.
- 2 - O adjetivo "dionisíaca" (R.9) está empregado em referência às variadas formas prazerosas com que, na cultura africana, são organizados os rituais em família.
- 3 - As aspas que marcam o termo "civilizados" (R.13) evidenciam o tom irônico com que o autor do texto caracteriza a cultura européia e cristã.
- 4 - Pelos sentidos do texto, conclui-se que a existência do "diabo" é fruto da criação humana para se garantir a disciplina em determinada cultura.
- 5 - A expressão "o inferno eterno" (R.15) tem, no texto, função de aposto.
- 6 - Infere-se do texto que as condições sociais têm influência decisiva sobre o processo de libertação do ser humano em relação às ideologias a que está submetido.
- 7 - Na linha 19, o pronome "o" classifica-se como oblíquo átono e está empregado em referência ao fato mencionado no período anterior.
- 8 - Na linha 20, a oração "porque já se constituíram condições sociais favoráveis" está construída com sujeito indeterminado.
Fonte: http://www.cespe.unb.br/Vestibular/TF%5F06%5F01/arquivos/TF_PROVA.PDF)
Gabarito das questões, acima: todos os itens estão corretos, exceto os itens 7 e 8, que estão errados.
O tema da "música e afeto na família escrava" sugere outra abordagem, comparativa, a da música e afeto na família de imigração italiana. A motivação por tal tema decorre certamente de minha própria experiência de vida, que despertou meu interesse em escrever aquele artigo sobre o olhar de Rugendas voltado para a família escrava e, agora, estas reflexões sobre as condições em que foram criados os filhos da imigração italiana, com a qual tenho fortes referências musicais e afetivas. Minha experiência de vida é um cadinho da experiência dos meus antepassados, cujas famílias foram "desterradas" de sua pátria, apresentando algumas semelhanças, sob outras formas de "escravidão", com as famílias dos africanos escravizados. As famílias africanas eram caçadas ou trocadas por fumo e armas, entre outros métodos. Por sua vez, a barbárie relacionada com a "comercialização" de famílias italianas serviu-se de um período de fome, na Itália, acionando companhias de recrutamento de mão-de-obra, que semeavam sonhos de liberdade e riqueza, mas subjugavam as famílias italianas ao regime de colonato e "prisão" por dívida, como a contraída no plano de pagamento da viagem marítima, na arriscada diáspora italiana.
Sou grato ao Cespe/UnB pelo gesto de aprovação, inclusão e interpretação de meu artigo, o que para mim significa um grande acato ou, no mínimo, consideração, em torno das propriedades do artigo. Propriedades que não são minhas, pois que estilo de redação, idéias sociológicas, concepção de mundo e sensibilidade musical, eu atribuo essas propriedades, em primeira instância, às experiências de vida por que passei nas quais fui mais produto social do que sujeito e vontade - desde a infância, numa família de tradição musical italiana e humanista-cristã, o período de internato no Seminário São José de Uberaba, passando pela conjuntura do golpe de 64 e da música de protesto, que vivenciei no Rio de Janeiro, até as primeiras leituras de "O Capital", no mestrado em Sociologia, na Unicamp, nos anos 70.
A música e o afeto, que tiveram lugar privilegiado na vida de escravidão dos africanos, no Brasil, foram também marcantes na vida sofrida das famílias imigrantes italianas, que vieram substituir a mão de obra escrava. Se a cultura africana dionisíaca contrapõe-se à civilização européia e cristã que, há muitos séculos, adota um modo de educar fundado na disciplina rigorosa, na castração dos impulsos, no sofrimento e na culpa, não se pode, contudo, deixar de constatar que a dimensão dionisíaca da vida não está excluída da cultura italiana que migrou para cá. Embora menor que na cultura afro-descendente escravizada, "Dioniso" não deixa de ter um papel também importante na vida dos ítalo-descendentes. Veja-se que o "Dioniso" dos gregos é o mesmo "Baco" dos italianos. Se é difícil perceber a existência de traços de "castração da vida" (expressão muito utilizada por Nietzsche), na herança cultural africana, o mesmo não se pode afirmar em relação à herança cultural européia, seja italiana ou portuguesa, onde os momentos de prazer são frequentemente ocasiões de descarga de forças vitais reprimidas pela própria cultura, suas contradições internas. Já os momentos de festa, na cultura dos africanos escravizados, estavam em harmonia com a vida, em suas comunidades livres, nos quilombos, mas em oposição ao trabalho escravo. Um alívio contra a repressão branca, nos latifúndios da cana e do café.
Ao ler as questões elaboradas pelo CESPE, comecei a Imaginar o quanto de arte e afeto foi também construído pela dedicação dos pais de família italianos, trabalhadores incansáveis, em tempos de muita labuta, em meio a muita decepção e desesperança, sob o regime de colonato. Um trabalho gigantesco, na tentativa de legar aos filhos uma vida com muito afeto e a possível realização de um "pé de meia", contra a opressão, que poderia ser aliviada através de outras formas de sustento da família, fora do regime de colonato.
A vida girava em torno do trabalho obstinado, única saída que pudesse levar à concretização do sonho que os tirou da Itália, o sonho de "fazer a América", expressão fixada na memória de meu avô e transmitida a meu pai. Os momentos liberados do trabalho eram preenchidos com reuniões de músicos, encontros e festas em família, com muita música, vinho, cerveja e dança, congregando famílias que cresciam muito rapidamente, bastando 15 anos ou menos para se ter uma prole de 10 filhos. O afeto pela família repartia-se frequentemente com o afeto pela própria comunidade, a chamada "colônia italiana", e pela humanidade, nas utopias que moviam os italianos e seus descendentes em direção à religião e às ideologias, como o anarquismo e o socialismo, como visto no filme "Sacco e Vanzetti" ou na novela "Terra Nostra". Nesta, Raul Cortez fazia a personificação do imigrante italiano, o pianista Gennaro, em São Paulo, à procura de afetos perdidos e distantes de sua família. E vê-se ainda a personagem Juliana pedindo ao jovem imigrante Matheo que esquecesse a Itália e o anarquismo. Na imaginação da época era comum se confundir anarquismo com bolchevismo, como se pode perceber pelas crônicas de Lima Barreto, por ocasião da Revolução Russa de 1917.
Quantos italianos e seus descendentes contribuíram para a formação de minha musicalidade, meus afetos e minhas ideologias! Só no internato, o Seminário São José de Uberaba, o padre Juvenal Arduini, pelas suas aulas e obras publicadas sobre questões da justiça social e da Ação Católica; o padre Jorge Tomás Fialho, um pai, mentor espiritual e musical, a quem mais devo o controle rigoroso de meus estudos de música, cobrando-me de 4 a 6 horas diárias de estudos de piano e assiduidade ao curso do Conservatório Musical de Uberaba, e minhas primeiras apresentações, ao piano, integrando um quarteto (violino, viola, violoncelo e piano), que representou o Seminário nas cidades de Uberaba, Sacramento, Araguari e Uberlândia; e o padre Pedro Magalini, sem o qual certamente eu não teria ouvido, pelo rádio, alguns momentos do I Concurso Internacional de Piano do Rio de Janeiro, de 1957, e comentários sobre o pianista carioca Arnaldo Estrella, de renome internacional, sem imaginar que um dia eu seria aluno deste, na Escola de Música, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
As primeiras aulas de piano, no Conservatório Musical de Uberaba, as tive com Maria Pedrinha Riccioppo. Sob a orientação do exímio pianista e regente Alberto Frateschi, diretor do Conservatório (atual Conservatório Estadual de Música, de Uberaba), cursei os últimos anos e, com ele, executei, a 2 pianos, o primeiro movimento do "Concerto n. 3" de Beethoven, como concerto de formatura. Frateschi, mais um ítalo-descendente na minha história de vida, doou o acervo do seu Conservatório para o Estado de Minas Gerais. Hoje, a instituição tem o nome de seu pai, um italiano: Conservatório Estadual de Música Renato Frateschi.
Música e afeto na família italiana me fazem pensar na fotografia em que um menino de 13 anos, Antônio Giani, meu pai, está tocando cavaquinho, na orquestra do "seu" Giani, meu avô, imigrante, que está tocando clarineta (vide foto), nos anos 20. No passaporte deste, lê-se "Luigi Gianni, nato a Cremona, il 7 ottobre 1872". Aqui chegou em 1897, desembarcando em Santos. Antes, servira ao exército italiano como mestre de padeiro, na Eritréia, onde a Itália constituira uma colônia, em 1890, sob o reinado de Humberto I. No campo de guerra da ocupação italiana, Luigi Gianni fazia pão e dedilhava instrumentos de sopro.
Assim, comecei a descortinar a trilha musical-afetiva que vem da clarineta italiana, de meu avô, e passa pelo violino de meu pai, que atuou no cinema mudo, no coro da igreja matriz, nas festas da roça, nos casamentos, nas reuniões em família, inclusive com minha participação, no repertório que tocávamos juntos em frequentes duetos de violino/piano, nas décadas de 50 e 60. O dueto se transformava em trio - harmonium, violino e voz, com a soprano Maria Antônia no coro da igreja.
Talvez passem desapercebidas por uma parte dos leitores as raízes ideológicas do meu artigo utilizado na prova da UnB. Com alguns fundamentos marxistas, o artigo resulta de uma fusão de condicionamentos ideológicos, na minha formação geral e musical, desde a infância, o internato, a JUC e os primeiros convívios com os movimentos de esquerda. Na base de minhas idéias e sentimentos voltados para os "olhos" de Rugendas, está a formação marxista do meu "olhar", forjada especialmente a partir do mestrado em Sociologia (Unicamp). Meu "olhar" não nega, mas complementa e redireciona muitas afinidades oriundas da sensibilidade cristã-socialista, já latente no Seminário São José (anos 50) e aprofundada nos movimentos da JEC e JUC, em Uberaba (1961-1962) e Rio de Janeiro (1963-1965). No Seminário, encantavam-me as palavras do Padre Pratinha (Tomáz de Aquino Prata), recém-chegado dos Estados Unidos, onde cursara Sociologia, e do Padre (Monsenhor) Juvernal Arduini, cuja influência já relatei, acima.
No período pós-internato, alguns dos momentos mais expressivos de minha experiência foram meu primeiro concerto de piano promovido pelo DCE (1962, coordenação de Sônia Scussel e Luiz Antônio Rossetti), a participação no XXV Congresso da UNE, em Petrópolis (1962), o rápido mas decisivo convívio com a UNE-Volante e seu Centro Popular de Cultura, que passavam por Uberaba, a entrevista que realizei com Aldo Arantes, então presidente da UNE, e a publicação da mesma em "A Lira" (ano II, n. 3, junho de 1961), órgão do Diretório Acadêmico Carlos Gomes, que presidi, em 1961-1962, no Conservatório Musical de Uberaba. Para a edição n. 4 de "A Lira" (agosto/setembro de 1962), preparei o artigo "Arte também faz revolução" e solicitei a colaboração de Guido Bilharinho, escritor uberabense, que enviou-me o texto intitulado "Arte, Ciência e Política", também publicado na mesma edição.
Nesses anos 60, minha sensibilidade revolucionária fortaleceu-se, pelo envolvimento com a música de tendência nacionalista, anti-imperialista, pautando inclusive a linha estética de meu repertório de piano. Mas não fui dominado pela ortodoxia de esquerda. Senti-me atraído também pelas novas sonoridades, como a pioneira obra vanguardista, "Canção da Paz", um trio de voz-sintetizadores-piano, de Jorge Antunes (hoje, diretor do centro de pesquisas eletroacústicas da UnB), estimado amigo, com quem colaborei, ao piano (trio executado na "Aldeia", de Pascoal Carlos Magno, em Arcozelo/RJ, 1965).
Enfim, sem o ponto de partida, sob orientação de Alberto Frateschi, dificilmente eu teria tido acesso, na mesma década (anos 60) à classe de meu último mestre Arnaldo Estrella e sua assistente, Mirian Dauelsberg.
Na tese de doutorado, sobre a recepção da estética musical soviética na música brasileira, descobri quão importante foi a vinculação entre música, afeto e ideologia, após a Segunda Guerra Mundial. A atuação musical de muitos compositores, regentes e intérpretes, como Arnaldo Estrella, lado a lado com a militância político-ideológica, apresenta um estreito engajamento nas ações culturais promovidas ou apoiadas pelo Partido Comunista, inclusive internacionalmente, como o "Manifesto de Praga", do qual Estrella é o primeiro da lista de signatários. É expressiva a lista de músicos "engajados", cujo degrau, em música, equivale, em outras artes, ao de militantes do partido comunista, como um Oscar Niemeyer, Portinari, Jorge Amado ou Oswald de Andrade (Mário de Andrade restringiu-se à simpatia pelo partido). Juntamente com Estrella, a "nata" da música estava no "engajamento", nos anos 50: Francisco Mignone (filho de um flautista italiano que aqui chegou em 1896), Cláudio Santoro, Guerra Peixe, Camargo Guarnieri, José Siqueira e Edino Krieger, entre outros. Valiosos documentos históricos são as gravações de algumas obras desses compositores, das quais tenho algumas em disco-vinil, realizadas em Moscou, Alemanha Oriental e outros centros de irradiação da política cultural soviética. Villa-Lobos foi mais reservado em ações partidárias de esquerda (foi um personagem oficial do Estado Novo), o que não impossibilitou a efusiva homenagem que recebeu da comitiva soviética, liderada pelo compositor Katchaturian, por ocasião do I Congresso Internacional de Piano.
Sob esse clima de luta nacionalista, nos anos 60/70, com acentuada carga de ideário socialista, completei o que comumente se pode chamar de "base", "fundamento", de minha formação musical-ideológica. Com este espírito, concluiu meu curso de piano, sob a orientação de Arnaldo Estrella e sua assistente, Mirian Dauelsberg, na Escola de Música da UFRJ.
Falar de música e afeto na família escrava tem algo em comum com música e afeto nas famílias de imigração italiana. Tanto a família africana quanto a italiana tem uma história de sofrimento e privação, desterradas da terra natal, como mão de obra escrava ou substituta desta, respectivamente, e histórias de música e afetividade, como compensação da dor e do sofrimento, e como forma de cultivar sonhos, utopias, ações de resistência e luta. Patápio Silva, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Adoniran Barbosa, Pixinguinha ou Villa-Lobos e os compositores acima citados, são modelos destas sínteses felizes de música e afeto, cultivadas em reuniões de família, saraus e rodas de samba, sincretizando samba e batuque com melodias herdeiras da canção italiana, além da portuguesa, e, frequentemente, associando música e afetividade com as dimensões mais amplas da vida, como as ações sociais e político-ideológicas.
Dedico esta crônica a minha terra natal, Sacramento, na comemoração de seu aniversário em 24 e a Uberaba, onde tudo começou, e, de modo especial, à "colônia italiana" e ao editor de Destaque In, Carlos Alberto Cerchi e Alessandro Abdala, predestinados a cruzar meus caminhos, e vice-versa, desde que sua nona, Dona Maria, adquiriu a padaria de meu nono, Luigi Gianni. Tute buona gente!
Luiz A. Giani é natural de Sacramento. Diplomado em Piano (Conservatório Musical de Uberaba); graduado em Música/Piano (Escola de Música/UFRJ) e Ciências Sociais (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais/UFRJ); mestre em Sociologia (Unicamp); doutor em História (Unesp/Assis) e professor do Departamento de Ciências Sociais, da Universidade Estadual de Maringá (1990-2003), aposentado.
