Represa do Estreito "A beleza e o mapa da destruição"




A belíssima represa do Estreito está localizada no Rio Grande, na divisa de Minas com São Paulo, entre os municípios de Sacramento (margem mineira) e do Estreito e Franca (margem paulista). Está abaixo da barragem da UHE de Peixoto, e acima do reservatório da UHE de Jaguara. Seu barramento tem altura máxima de 92m, foi concluída no ano de 1968. Possui área de reservatório de 4.653 (ha) e tem potência instalada final de 1.050 mega watts. Ver o histórico encarte especial da Revista Destaque In, o vale e a bacia do Rio Grande, passado e presente, edição nº. 46 de julho/agosto de 2002, de autoria conjunta dos brilhantes cientistas Manuel Pereira de Godoy (de saudosa memória) e do escritor sacramentano Prof.º Carlos Alberto Cerchi.

Recebeu o nome de UHE do “Estreito” porque o rio largo e caudaloso, ali se estreitava entre as margens de pedra correndo com muita velocidade e violência.

    Emprestando também este nome ao povoado que surgiu com a construção da barragem, e depois se tornou localidade.

Nos anos 60 com a ajuda dos políticos o aval das autoridades e a submissão dos cidadãos comuns, os grandes e poderosos grupos econômicos esbanjando seu poder financeiro, arquitetaram construir ali naquele local intransponível e de difícil acesso, uma obra faraônica (barragem) para transformar a energia cinética das águas do rio em energia elétrica, e obter assim lucros cada vez mais fantásticos e milionários. Com isto modificaram os regimes das correntes fluviais e alteraram a geomorfologia do rio que corria livremente a milhões de anos, inviabilizando o processo reprodutivo dos peixes de piracema, colocando muitos na lista de extinção.

    A represa do Estreito nos dias de hoje padece de um drama de duvidosa solução, principalmente pela gestão desastrosa dos seres humanos, e com a miopia, e a inércia dos consórcios que administram as hidrelétricas foram construídos de maneira desordenada e ilegal, dentro da Área de Preservação Permanente (APP) centenas de ranchos. Este fato fez surgir na represa um grande contraste adverso e nocivo. De um lado os irmãos paulistas, conhecidos por seu ímpeto e ousadia, resultado quase todo margem paulista tomada e devastada. Do outro os mineiros, conservadores e precatados, talvez por isto só agora a especulação imobiliária começa a despertar na margem mineira.

    Este é o mapa da destruição. Que nos perdoem os irmãos impetuosos, e até mesmo os conservadores, mas nos dias atuais preservar é fundamental, e as escolhas que a gente faz ao ocupar e explorar as APPs sem pensar nas conseqüências é na preservabilidade, certamente é um legado pernicioso que não queremos deixar para nossos adolescentes e as futuras gerações. Lugares encantados, virgens de beleza sem fim, riachos de água límpida que deságuam na represa em cachoeiras maravilhosas, podem estar com os dias contados, e desaparecer rapidamente. As terras que margeiam a represa são de solo muito fraco (pedras), e de baixa fertilidade, a mata ciliar formada a milhares de anos pode ser suprimida facilmente.
Com a construção ilegal dos ranchos, espécies endêmicas raras e valiosas da fauna e da flora podem ser extintas sem nenhum esforço.

    Nem sempre o que é permitido por Lei proteger a Natureza. A grande maioria das pessoas sabe o que é correto para proteger o meio ambiente, infelizmente existe uma grande lacuna, entre saber e fazer o que é certo, e na hora de agir as pessoas preferem ocupar uma posição mais pragmática por seus próprios interesses. Com isto o meio ambiente acaba sempre no prejuízo e pagando a conta.

    Porque os consórcios que administram as hidrelétricas e lucram tanto não cumprem a Lei e colocam um ponto final nesta bagunça. Por que ninguém faz nada?
    Será que estão todos com amnésia, ou ficaram paraplégicos? Surpreendentemente existe regulamentação legal para isto.

    De acordo com um Projeto de Lei aprovado pela Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados, no ano de 2005 os consórcios que administram as hidrelétricas foram obrigados a desocupar, reflorestar e fiscalizar as áreas de preservação permanente que no caso da represa do Estreito ocupa faixa marginal de 100m ao redor do reservatório.

    A paralisia dos consórcios nesta relação amistosa e de timidez para com os invasores e ocupantes ilegais, na realidade, coloca as duas partes como infratores.

    Para se evitar a ocupação ilegal das (APPs), e até mesmo a especulação imobiliária na margem mineira, talvez seja o caso de se desapropriar de maneira justa e correta os proprietários rurais, e criar ali uma reserva biológica, já que as terras são impróprias, para a agropecuária, e a água se tornou preocupação mundial, e será provável causa de disputa e conflito entre os povos do futuro.

É urgente que não se permita a especulação imobiliária na margem mineira que aparenta caminhar a passos largos. As represas devem ser patrimônio de todos, não apenas privilégio dos mais ricos e abastados. Facilitar e permitir o acesso dos mais humildes, é esbanjar justiça e cidadania, mas infelizmente esta parece não ser uma preocupação das nossas autoridades.

    No caminho para o futuro, a represa não poderá conviver com este grande paradoxo sem se contaminar.

    Demolir ranchos e mansões ilegais, de autoridades, de figurões da política, e de pessoas influentes é utopia, mas precisamos acreditar que alguma coisa pode ser, e será feita.

Sobreviver aleatoriamente ou apenas do amor de meia dúzia de pescadores esportivos, e de alguns ecologistas simpatizantes será muito difícil. Tornou-se crucial interromper este grande crime ecológico, mas o mapa da destruição e da dura realidade parecem apontar justamente em outra direção.