Guido Bilharinho
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O Andarilho - a existência itinerante
O andarilho tem, na literatura brasileira, precedente ilustre na figura de Rubião, de Quincas Borba (1891), romance de Machado de Assis, e no filme homônimo, de 1986, do cineasta Roberto Santos, nele baseado.
Conexões Nacionais e Internacionais de Personalidades Uberabenses
A localização estratégico-geográfica de Uberaba, posicionada, conforme Bustamante Lourenço, na “intersecção entre dois sistemas dendríticos”, o que partia de São Paulo e o que partia do Rio de Ja-neiro via São João Del Rei, sendo “intermediária entre duas cidades primazes Rio de Janeiro e São Paulo e três regiões - Triângulo, Goiás e Mato Grosso”, tornou-a “centro regional do Império”, no dizer do citado historiador1, transformando-a, segundo Marquez de Resende, “em pólo econômico importante para as transações comerciais do Triângulo Mineiro, Goiás e Mato Grosso”, que se abasteciam “em Uberaba e aí vendiam seus produtos de origem”2.
Frei Eugênio
Major Eustáquio
Entre o Rio Grande e o Rio das Velhas na província de
Minas Gerais Comarca do Paracatu do Príncipe, Julgado do Desemboque,
Prelazia de Goiás", segundo Vigário Silva (História Topográfica da
Freguesia de Uberaba Vulgo Farinha Podre), "está a povoação de
Sto. Antônio e São Sebastião do Uberaba. Os lugares, que ela
compreende, eram incultos e desertos até 1807, e apenas conhecida a
estrada, que atravessa de S. Paulo para Goiás, onde residiam alguns
índios".
Por essa época diversos moradores do Desemboque vieram à região e,
quando voltaram, a descreveram ao Sargento-Mor ou Major (postos que se
equivaliam) Antônio Eustáquio da Silva e Oliveira, que se interessou em
explorá-la. Por força disso, seu irmão, Coronel José Manuel da Silva e
Oliveira, indo tomar posse do Governo do Pará, passando por Goiás, a
que pertencia o Julgado do Desemboque, comunica o fato ao Marquês de
São João da Palma, que então governava aquela província, o qual nomeou
Major Eustáquio Comandante regente dos Sertões da Farinha Podre, em 27
de outubro de 1809.
Nesses entrementes, narra Hildebrando Pontes (Vida, Casos e Perfis),
diversas pessoas saídas do Desemboque estabelecem-se à margem esquerda
do alto ribeirão do Lajeado, afluente da margem esquerda do Rio
Uberaba, constituindo pequena povoação fundada pelo sertanista José
Francisco de Azevedo, que chegou a ter vinte casas e pequena capela,
denominada "Arraial da Farinha Podre" ou "da Capelinha", tendo como
oragos (padroeiros) Santo Antônio e São Sebastião.
Em julho de 1810, segundo Vigário Silva, Major Eustáquio forma uma
bandeira de trinta homens encaminhando-se a oeste cerca de trinta
léguas, onde, com seus acompanhantes, lança algumas posses e faz
pequenas roças. Em 1812, ao proceder segunda entrada, verificando não
ter o Arraial da Capelinha possibilidades de desenvolvimento, avança
mais a oeste, edificando à margem esquerda do córrego das Lajes casa de
morada, aproximadamente à um quilômetro de sua foz, localizada na atual
Univerdecidade, onde anteriormente existiam, sucessivamente, o
Instituto Zootécnico de Uberaba, o Aprendizado Borges Sampaio, a
Fazenda Experimental Getúlio Vargas ou "Fazenda Modelo" e a Embrapa.
Dois quilômetros acima, na esquina da atual Praça Rui Barbosa com Rua
Artur Machado, onde hoje é o Hotel Chaves e foi por décadas a loja
Notre Dame de Paris, constrói "retiro" para suas criações e instala
tenda de ferreiro a cargo de seu escravo Manuel.
A partir daí, a seu convite, demonstrando seu intuito de fundar
uma povoação, os moradores do Arraial da Capelinha vão pouco a pouco
transferindo-se para junto do retiro, criando a primeira rua de
Uberaba, a Rua Grande, atuais Vigário Silva e Manuel Borges.
Antônio Eustáquio da Silva e Oliveira nasceu em Ouro Preto/MG, em 1770,
vindo a falecer em Uberaba, em 6 de fevereiro de 1832. Em cerimônia
celebrada pelo Vigário Silva, casou-se com Antônia Angélica de Jesus,
com quem teve filhos, deixando, porém, três filhos naturais (Valeriano,
Francisca Maria e Sebastiana Maria).
A teor do relato feito a Hildebrando Pontes pelo Capitão Manuel Prata
(Manuel Joaquim da Silva Prata), falecido em 1905 aos 97 anos de idade
e que conviveu com o major treze anos, este "era de estatura mediana,
cabelos louros, olhos azuis, voz quase rouca [...] trajava calções de
veludo, meias compridas, sapatos de fivelas de ouro e prata, casaco à
Luís XV, capa, espada e chapéu armado", apresentando-se por vezes
"fardado com a banda e dragonas", usava a barba feita e gostava de
caçadas. Conforme Hildebrando, Major Eustáquio, que só cursara a escola
primária, "não era um espírito culto segundo se depreende do pouco que
deixou escrito".
No entanto, até seu falecimento no uso de suas prerrogativas
funcionais," administrou eficazmente Uberaba, constituindo-se no que se
poderia considerar de facto seu primeiro prefeito", como se entende
hoje essa função.
Entre suas inúmeras iniciativas e realizações, destacam-se
algumas de fundamental importância para consolidação e desenvolvimento
do povoado e posterior arraial. Entre elas, segundo Hildebrando Pontes,
a criação, em 13 de fevereiro de 1811, do Distrito dos Índios, com sua
nomeação a "Curador dos Índios" do distrito. No entanto, Vigário Silva
em sua obra não se refere a esse acontecimento, informando que nessa
data o Major e outros obtiveram, da Mesa da Consciência e Ordem,
provisão para erigirem uma capela com o orago da Senhora do Monte do
Carmo, até meados da década de 1820 não construída. A elevação do
arraial à freguesia,em 2 de março de 1820, deveu-se a requerimento do
Major Eustáquio.
Em janeiro de 1823, o Major e Vigário Silva instalam em sociedade o
Porto da Ponte Alta, visto estar o Porto da Espinha, estabelecido pelo
Anhanguera mais abaixo à época em que abriu a estrada para Goiás
superando tanto pela tortuosidade da estrada quanto pela incidência de
maleita.
Além disso, devidamente autorizado por Carta Régia de 1820, abre
estrada no distrito e presta assistência aos índios da região,
levando-lhes, segundo Hildebrando, "a roupa, a ferramenta e a paz",
informando ainda Vigário Silva que esses índios (caiapós) não cometiam,
à época, "a menor hostilidade, o que se deve sem dúvida ao jeito e ao
amor com que têm sido sempre tratados pelo Sargento-Mor Antônio
Eustáquio da Silva, que os visita todos os anos, prodigalizando-lhes
roupas e ferramentas, ora a sua custa, ora a custa da Fazenda Pública".
O Major Eustáquio também estabeleceu a navegação fluvial do Rio
Moji-Guaçu até o Rio Grande, conseguindo, ainda, isenção do pagamento
dos impostos por dez anos e todos que se instalassem nas margens da
estrada aberta entre o novo porto e a povoação, o que foi deferido em 7
de janeiro de 1826. Cuidava o Major do policiamento da região, conforme
relatou a Hildebrando Pontes o Capitão Manuel Prata, reprimindo a ação
dos inúmeros criminosos foragidos das Gerais e que procuravam refúgio
na região, obrigando-os "a trabalhar na construção de muros, casas de
taipa e outros serviços em roças".
Toda essa atividade levou Vigário Silva a registrar, ao encerrar seu ensaio histórico:
"Estando a Freguesia do Uberaba em circunstâncias de poder pela
natureza do seu fértil solo interessar muito ao Império e aos
particulares nela residentes e que vierem depois, deve-se tudo em
grande parte ao Sargento-Mor Antônio Eustáquio da Silva, que não se tem
poupado, nem a despesas, nem a fadigas, nem a persuasões para aumentar
a sua povoação, pôr em atividade o seu comércio e animar a agricultura".
